Muito além do mosquito

© James Gathany/CDC

União entre ciência e saúde pública é essencial para combater Dengue, Zika e Chikungunya

A quádrupla epidemia
Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza

Epidemias rondam a nossa vida. De forma recorrente, elas ameaçam nosso cotidiano, e deixam seu rastro de mortes e sequelas. Houve uma época – entre 1940 e 1970 – em que a humanidade acreditou que vacinas e antibióticos haviam vencido a batalha contra as doenças infecciosas. Aids, hepatites, Ebola e “superbactérias” destruíram o mito da vida sem riscos. No presente, a ameaça à nossa porta é um monstro de três faces – dengue, chikungunya e zika.

Em um romance célebre, Albert Camus afirmou que nunca se sabe quando “a peste acordará seus ratos (…) em uma cidade feliz”. Hoje, quem tira o nosso sono não são os roedores, mas um terrível mosquito que soube se adaptar ao nosso modo de vida. Em termos simples, o Aedes aegypti depende dos seres humanos para sobreviver. Somente nas cidades é possível encontrar os reservatórios de água limpa nos quais suas larvas se desenvolvem. Além disso, suas fêmeas precisam de sangue para se tornarem férteis.

No século XIX e início do século XX, a presença do Aedes nos centros urbanos estava associada a epidemias de uma doença gravíssima – a febre amarela. Uma ação agressiva para controle dessa doença erradicou o Aedes do Brasil em 1955. Mas ele retornou na década de 1970, e parece impossível vencê-lo. O que mudou? Muito mais do que aparenta à primeira vista. A urbanização desordenada, a produção descontrolada de resíduos sólidos e uma vasta gama de comportamentos que geram acúmulo da “água parada” forneceram ao Aedes residência permanente em nossas cidades.

Como, portanto, enfrentar nosso atual pesadelo? Centenas de milhares de casos de dengue foram diagnosticados em 2015. Embora a letalidade possa parecer baixa – uma morte a cada 2.000/2.500 casos –, em termos absolutos correspondeu, em uma comparação trágica embora verdadeira, à de vários acidentes aéreos de grande porte. A principal sequela da infecção pelo vírus Zika, a microcefalia, atinge de forma cruel a população mais frágil, agredindo os mais básicos sentimentos humanos, relacionados a maternidade e paternidade. A febre chikungunya ainda é restrita a alguns estados, mas mostra disseminação preocupante. As dores articulares associadas a essa doença são incapacitantes, e áreas acometidas sofrem com grande absenteísmo em locais de trabalho e escolas.

Deve-se encontrar um caminho que evite a negligência (pois existe de fato uma situação preocupante) e o pânico (que paralisa nossa resposta)

Como podemos combater a chamada “tríplice epidemia”? Não há respostas simples, mas um caminho é claro. Ele inclui vigilância, controle de vetor, diálogo com a população e pesquisa. A vigilância epidemiológica permite identificar a distribuição geográfica dos casos, grupos populacionais mais vulneráveis a fatores associados a gravidade e sequelas. Ela colabora para intensificação do controle do Aedes, apontando para situações que exigem ação imediata. Um aspecto importante desse controle é a ecologia do mosquito. Ao longo de sua curta vida, ele dificilmente se afasta mais que 100 metros do local onde nasceu. Por essa razão, o bloqueio representado pela eliminação de focos do mosquito em uma área com raio de 200 a 500 metros é eficaz para interromper uma cadeia de transmissão. Repelentes são importantes, mas a ênfase nessa medida individual – em detrimento da eliminação do mosquito – não ajudará a controlar as três viroses. O que é realmente necessário é trabalhar para que nossas residências não alberguem esse hóspede incômodo. Reacender as mais antigas redes sociais – família, vizinhança, bairro. Cobrar ação do poder público – é claro –, mas também exercer nossos deveres de cidadãos.

A questão de comunicação traz à tona a “quarta epidemia”. Ela envolve medo e desinformação. Teorias da conspiração se alastram nas redes sociais, prestando um desserviço à saúde pública. Precisamos manter um diálogo claro e estimular a confiança entre população, especialistas e autoridades.

Deve-se encontrar um caminho que evite a negligência (pois existe de fato uma situação preocupante) e o pânico (que paralisa nossa resposta). E é nesse contexto que a iniciativa dos pesquisadores nacionais e de outros países de se pôr a serviço da saúde coletiva é uma boa notícia. No já citado romance de Camus (A Peste), o autor conclui que epidemias mostram que “nos homens há mais coisas a admirar que a desprezar”. A união entre ciência e saúde pública é um desses aspectos admiráveis, que no passado permitiu o controle de outras epidemias e no presente nos enche de esperança.

_____________________

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza é professor adjunto do Departamento de Doenças Tropicais da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 8 de janeiro de 2016.

_________________________________

Epidemia de dengue
Jayme Souza-Neto

Vivenciamos uma antecipação da epidemia de dengue no Estado de São Paulo em 2016. É o que nos sugerem os dados mais recentes disponibilizados pelo Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde e destacados no Estadão (Saúde) em 20/1/16, referentes ao período de outubro a dezembro de 2015. Após um ano em que a dengue atingiu índices negativamente históricos principalmente para o estado, com agravamento em todos os indicadores, 2016 figura como um ano em que novos recordes poderão infelizmente ser notificados.

Como uma das possíveis causas, podemos certamente destacar que, novamente, no segundo semestre de 2015 não houve interrupção da transmissão da dengue no estado. Longe disso, o número de casos contraídos em São Paulo (autóctones) permaneceu muito alto, sempre acima dos 1.000 casos. Assim, quando a estação chuvosa teve início, o vírus já estava circulando, e sua transmissão é agora potencializada pelo aumento gradual e rápido do número de mosquitos Aedes aegypti durante este período. Some-se a isso o grande volume de chuva no mês de janeiro e os vírus Zika e Chikungunya, também transmitidos pelo vetor, e temos um cenário extremamente preocupante para os próximos meses.

Em momentos críticos e delicados como esse, a combinação de forças e habilidades é fundamental. Iniciativas promovidas pelos municípios, como por exemplo os mutirões de limpeza, são peças essenciais desse quebra-cabeças tão complexo que é conter o avanço dessas doenças. Merecem destaque ainda as forças-tarefas emergenciais, como a rede Zika, que integra pesquisadores de Unesp, USP, Unicamp e institutos de pesquisa de São Paulo com apoio da Fapesp, ou a rede Aedes-dengue em formação na Unesp. São iniciativas que representam uma resposta das instituições públicas paulistas, financiadas com dinheiro de impostos estaduais, à sociedade, e demonstram um claro engajamento dos cientistas em tais ações.

Apesar dos recentes avanços nas pesquisas e do surgimento de novas armas para controlar as arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti, tais quais a vacina contra a dengue ou o “Aedes do bem”, há que se ressaltar que cada estratégia tem sua limitação e não deve ser vista como a solução definitiva para estes problemas. Por isso, é vital que a população continue atenta e intensifique ainda mais o seu papel no combate a criadouros e focos do vetor. Controlar o mosquito é ainda a maneira mais eficaz e direta de se eliminar ao mesmo tempo dengue, zika e chikungunya.

_________________________

Jayme Souza-Neto é Jovem Pesquisador Fapesp e Coordenador do Laboratório Vectomics do Instituto de Biotecnologia da Unesp em Botucatu. Contato: <jayme@ibtec.unesp.br>.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 22 de janeiro de 2016.

_____________________________________

Reflexão sobre dengue em 35 anos de transmissão
Adriano Mondini

Dengue é, inegavelmente, um grande problema de saúde pública. Em tempos de iminência de vacinas contra a doença, as atenções parecem ter sido voltadas aos casos de microcefalia associada à circulação do vírus Zika ou aos casos de febre do Chikungunya. Dengue acabou ficando em segundo plano e dados oficiais de janeiro mostram que 2016 vai ser um ano tão crítico para a transmissão da doença como o ano anterior. Foram 1,6 milhão de casos em 2015, um recorde na série histórica da doença. Dengue continua tão ou mais importante que outras doenças transmissíveis pelo Aedes aegypti. Para os que trabalham diretamente com a doença, o pesadelo começa no final de dezembro e continua até junho, quando dá uma “folga”. A transmissão no país ocorre durante todo o ano, mas há um maior número de notificações nos primeiros meses.

Os casos da doença vêm sendo sistematicamente documentados no Brasil há 35 anos. É um marco histórico e cabe uma discussão sob dois aspectos: o da gestão das atividades de controle e as ferramentas diagnósticas para detectar a infecção viral, críticas para a identificação e gerenciamento dos casos. Sabe-se que a transmissão é multifatorial e cada ponto precisa ser profundamente estudado. A interação entre vírus, mosquito, população e área de transmissão apresenta variabilidade e a plasticidade das relações pode impactar na manifestação dos sintomas. No entanto, ainda recai sobre a população a responsabilidade pelo aumento no número de casos. Uma análise mais crítica, e menos simplista, faz-se necessária para se entender o que ocorre de fato.

Parece ficar cada vez mais evidente que a tendência ao aumento das notificações pode estar relacionada ao enfrentamento do problema nas esferas locais, de responsabilidade das gestões municipais. A vigilância epidemiológica apresenta uma série de fragilidades e a principal está relacionada a cargos utilizados como moeda de troca entre partidos políticos. Vagas estratégicas, como as relacionadas à saúde, não deveriam ser ocupadas em confiança, mas por profissionais com conhecimento técnico, comprometidos e que estejam profundamente sensibilizados com os problemas de saúde do município. A dança das cadeiras de cargos de confiança gera insegurança, descomprometimento e, principalmente, a falta de constância de ações contra a dengue, que passam a ser cartoriais, estéreis e realizadas apenas pela obrigatoriedade, não pela eficácia. Não há estratégias desenhadas para atender demandas e especificidades locais. Ações com esse nível de profundidade são tão efetivas como usar uma peneira como guarda-sol. O objetivo primordial jamais é alcançado.

Um fator preponderante que precisa ser discutido é a forma como o diagnóstico ocorre no Brasil

Outro fator preponderante que precisa ser discutido é a forma como o diagnóstico ocorre em nosso país. Apesar do advento de metodologias de ponta, a definição de casos ainda é feita através do diagnóstico clínico confirmado por sorologia, que são pontuais e financeiramente acessíveis. O primeiro é baseado exclusivamente em sintomas e dados hematológicos; o segundo, na resposta imune à infecção. Ambos estão condicionados à participação do paciente, que deverá procurar uma unidade de saúde e esperar atendimento. O resultado da sorologia chega, normalmente, quando o indivíduo já não está mais doente, o que gera propaganda negativa e a não adesão ao exame. Ambos sonegam informações que são importantes para o entendimento da doença em termos individuais e coletivos. Vale ressaltar que há uma diversidade de vírus transmitidos por mosquitos que tem sintomatologia inicial semelhante. Assim, o emprego rotineiro de metodologias para a detecção direta de vírus pode auxiliar no manejo diferencial do paciente ainda nos primeiros dias da infecção, além de fornecer subsídios para estudos em diversas frentes de ação.

Por fim, há outros fatores associados à transmissão de dengue que ainda precisam ser estudados e avaliados. Entretanto, nada parece tão urgente quanto o fortalecimento de medidas de controle mais conscientes e direcionadas às realidades locais e a ampliação das ferramentas diagnósticas, imprescindível à identificação mais precisa do agente etiológico responsável pela doença febril que motiva a busca pelo sistema de saúde.  Em tempos de guerra contra os vírus Zika, Chikungunya e Dengue, não se deve trocar gato por lebre.

__________________________

Adriano Mondini é professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara.

Este artigo foi publicado originalmente no Estadão Noite de 25 de janeiro de 2015.

____________________________________

BAIXAR PDF

 

Authors

One Comment;

  1. Felipe Ponce said:

    Um número grande de casos e a proliferação do vírus só aumenta! É incrível com a medicina está avançando! Já tem até proteína para impedir a proliferação da Zika. Que bom saber que esse vírus daqui alguns anos terá uma proporção menor.
    Além disso tem as vacinas que estão sendo feitas: http://www.valordeplanosdesaude.com.br/noticias-de-saude/
    A medicina sempre avançando! Isso é bom para nós que vivemos em um país tropical que a proliferação do mosquito é gigante.

*

quatro × 3 =

Top