Raduan Nassar vence o Camões 2016

Buri 15/05/2014 Escritor Raduan Nassar , que completa hoje 80 anos . FOTO Paulo Pinto/Fotos Publicas

Escritor brasileiro recebe o mais importante prêmio literário para obras em língua portuguesa

“A literatura não deixa de ser uma forma de tentar, num espaço muito confinado, que é o texto, organizar um mundo que não é exatamente uma reprodução do real, mas um mundo que você imagina. Existe, no texto, essa tentativa de compensar o desequilíbrio e a desordem instalada em toda a sua volta.” (Raduan Nassar)

“Não entendi esse prêmio, minha obra é um livro e meio”, disse Raduan Nassar à Folha de S. Paulo, dia 30/5/2016), por ocasião do anúncio de que havia recebido o Prêmio Camões 2016, referindo-se ao compacto conjunto de sua obra – Lavoura arcaica, de 1975, Um copo de cólera, de 1978, e Menina a caminho, 1994, edição não comercial. De fato é um livro e meio se pensamos num romance, numa novela e alguns contos esparsados escritos ao longo dos anos 60 e, depois, reunidos em livro. No entanto, os textos de Nassar são, como sugeriu Julio Cortázar, “esses grãos de areia no imenso mar da literatura continuam aí, palpitando em nós” (CORTÁZAR, 2006, p. 155). Compactuamos com as palavras do crítico e escritor argentino, pois Lavoura arcaica, por exemplo, chegou até as minhas mãos ainda nos anos da graduação e, desde então, quase toda minha produção científico-acadêmica está atravessada pelas obras do escritor brasileiro.

Depois de terminar Lavoura arcaica e Um copo de cólera, Nassar se retirou da cena literária para não mais voltar; mudou-se para uma fazenda para criar galinhas e vaca; falou publicamente que necessitava, para saldar as contas com a sua cultura e idiossincrasia ancestral, trabalhar com a terra. Faz quase 40 anos que o escritor fechou a conta com a literatura e afirma categoricamente ter dito tudo o que pensa e sabe nesses três livros.

É unanimidade entre a crítica literária destacar a exiguidade do conjunto da obra de Raduan Nassar, bem como considerá-lo uma voz de grande locução e dicção própria na literatura brasileira contemporânea.

A obra de Nassar não pode ser enquadrada num isto ou aquilo, dando a entender uma dicotomia que limite a abrangência temática

Há um fio invisível que perpassa toda sua obra e um leitor mais atento poderá observá–lo: o veto ao desejo; a frustração devastadora diante de uma demanda não alcançada; um verbo colérico, enxuto, exato; as mulheres sempre aguardando a ação do homem patriarcal, seja qual for.

É justamente guiado por esse fio que o leitor passa a conhecer o trabalho minucioso com as palavras – o artesão do verbo, que produz uma enxurrada de metáforas, nem sempre alcançada à primeira vista; uma pontuação “estranha” capaz de criar um efeito desenfreado de leitura para os mais desavisados. Às vezes, ainda que agarrados ao fio, levamos uns solavancos com as notícias que os narradores nos fazem saber. Em Lavoura, a personagem narradora, André, declara amar sua irmã Ana; esta, por fazer com que o patriarca da família seja ferido em seus preceitos, é assassinada por ele, que elimina com o golpe de um alfanje o demônio do incesto – “[…] e, fendendo o grupo com a rajada de sua ira, meu pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que vermelho mais pressuposto […])”. (NASSAR, 1989, p. 192) – que invadira sua casa. O narrador diz, ademais, ser a mãe a grande culpada – a aliciadora – pelo amor entre os irmãos e pela derrocada da família: “[…] te exorto a reconhecer comigo o fio atávico desta paixão: se o pai no seu gesto austero, quis fazer da casa um templo, a mãe, transbordando no seu afeto, só conseguiu fazer dela uma casa de perdição” (NASSAR, 1989, p. 136).

Um copo de cólera traz a explosão do verbo à máxima potência e irrompe junto com os gestos das personagens masculina e feminina. A força da palavra se reflete nas ações exasperadas do homem e da mulher: um encontro aparentemente tranquilo entre o casal se transforma na cólera e na ira de ambos, revelando a brutalidade da personagem masculina que agride a feminina com crueldade e prazer. De igual modo, podemos observar esse trabalho com as palavras no conto “Menina a caminho”: a explosão das ações e do verbo se dá simultaneamente. E assim, por intermédio da tensão e força desse verbo colérico, nos inteiramos das ações das personagens de Raduan Nassar.

“A casa está tomada, mas a voz forte de Zeca Cigano, sobrepondo-se ao berreiro das crianças e os gritos da mulher, de repente explode:

“Cadela!”

Marido e mulher se pegam num rude bate-boca que se prolonga até que [se] houve a primeira chicotada, acompanhada de uma falsa inquisição:

“Quem é que te ofendeu?”

E ouve a segunda chicotada, acompanhada também de uma falsa inquisição:

“Quem é que me ofendeu?”

A tala da cinta vibra no ar, um estalo terrível quando o couro desce na bunda da costureira (NASSAR, 1997, p. 46).”

Conforme se observa no extenso excerto acima, o verbo demonstra a cólera das personagens que chega ao extremo – a violência física empreendida contra a mulher; esta, por efeito de sugestão, teve um relacionamento extraconjugal e é ofendida pelo amante, conforme se verifica nas arguições de Zeca Cigano à mulher. As duas perguntas da personagem masculina dirigidas à costureira seriam idênticas, não fosse a substituição do pronome pessoal “te” por “me”; daí, podemos empreender a leitura de que a personagem feminina é ofendida pelo amante e, por conseguinte, a masculina também pela traição que sofre. Esse episódio sem muita falácia demonstra nosso pensamento sobre a tensão e a força do verbo empreendidas por Raduan Nassar. E ele afirma: “Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com as palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também” (NASSAR, 1996, p. 24).

Lavoura apareceu no mercado editorial em 1975 e Um copo em 1978. O primeiro já tem 40 anos, o segundo é apenas 3 anos mais jovem e as narrativas de ambos continuam bastante atualizadas, seja pela crítica que continua inventando novas leituras, seja pela relação entre os textos nassarianos com a cultura e a idiossincrasia hodiernas das sociedades ao redor do mundo.

Entre tantas outras temáticas, Lavoura representa o modelo familiar tradicional – pai, mãe, filhos, e nos revela que esse modelo pode ser falível, também, como qualquer outro. Nesse sentido, podemos pensar no direito igualitário de os sujeitos adquirirem e/ou construírem outros rearranjos familiares que não apenas o tradicional. Para o escritor, “A família continua sendo um filão e tanto para um escritor de ficção. Não tem quem não se toque, não blasfeme contra a família, não tem quem não chore de nostalgia. O que prova que todo mundo tem pelo menos um pezinho bem plantado nela […]” (NASSAR, 1996, p. 29).

No mês em que Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões, uma adolescente foi severamente violentada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro; o que escancara a violência de que as mulheres, no século XXI, ainda são vítimas. Têm o que é de mais privado –seu corpo – usurpado, subjugado, mutilado e sem possibilidade de defesa frente a outro(s) corpo(s) – o masculino. Em Um copo de cólera, a personagem feminina não é apenas agredida fisicamente, mas também humilhada por ser mulher, em sua profissão, tem sua inteligência ultrajada, é comparada a algo vil, um objeto sem qualquer valor – a coisificação do outro. Um copo, nessa perspectiva, tem muito a contribuir com as discussões empreendidas pelos Gender Studies; este é um tema urgente na pauta político-social para a construção de igualdade entre os gêneros.

O Camões 2016 entende  o rigor e a qualidade em que se ancora o projeto estético nassariano

A obra de Nassar não pode ser enquadrada num isto ou aquilo, dando a entender uma dicotomia que limite a abrangência temática e morfossintática. Em outras palavras, sua produção literária é “isto e aquilo” simultaneamente – bem ao gosto de Jacques Derrida, que propõe a desconstrução de qualquer modelo dicotômico, exaltando a différence num mesmo objeto. Assim, o autor não arquiteta seu constructo literário apenas com um verbo colérico e ruidoso, mas também de silêncios: “Desde minha fuga, era calando minha revolta (tinha contundência o meu silêncio! tinha textura a minha raiva!) que eu, a cada passo me distanciava lá da fazenda […]” (NASSAR, 1989, p. 35).

É nítido o silenciamento das personagens de Lavoura arcaica, da personagem central do conto “Menina a caminho”, da mulher que implora, em silêncio, por afetos a seu homem, no conto “De madrugada”.

De Ana, nada se sabe; em nenhum momento é dada a ela a oportunidade de expor seus sentimentos em relação à família, a André, ao pai. Conforme as palavras de Pedro, o irmão primogênito “[…] ninguém em casa consegue tirar nossa irmã do seu piedoso mutismo […]” (NASSAR, 1989, p. 39). Aqui, além do silêncio, revela-se a hipocrisia de Pedro travestida de zelo à família (como também o faz Iohána, o patriarca), pois esse silenciamento faz parte de uma imposição familiar, não parte de Ana.

A criança de “Menina a caminho” sofre uma série de violências pelos vários lugares em que passa durante sua caminhada que perpassa toda a narrativa. Em resposta às agressões simbólicas – xingos, desacatos, humilhações, separação de classe – ela dá seu imutável silêncio.

Em Lavoura, André percebe o poder do silêncio, denuncia a falácia paterna, não segue os preceitos de quem diuturnamente está com a palavra e não a dá a qualquer que seja; é o senhor absoluto, o patriarca, o dono por excelência do falo que não circula. Iohána, ao proferir seus sermões durante as refeições, talvez o faça de modo a criar o diálogo dos surdos – a (inter) (in) compreensão entre os membros familiares, pois “Não se pode levar a sério alguém que continue indefinidamente a bradar contra tudo e todos” (PERRONE-MOISÉS, 1996, p. 77).

Ainda em relação à exaltação ao silêncio, o narrador diz que o avô é o autor de um autêntico discurso, da palavra exata, categórica, que traz o entendimento a todas as coisas:

“(Em memória do avô, faço este registro: ao sol e às chuvas e aos ventos, assim como a outras manifestações da natureza que faziam vingar ou destruir nossa lavoura, o avô, ao contrário dos discernimentos promíscuos do pai – em que apareciam enxertos de várias geografias, respondia sempre com um arroto tosco que valia por todas as ciências, por todas as igrejas e por todos os sermões do pai: “Maktub.”) (NASSAR, 1989, p. 91).”

O fragmento acima é todo o capítulo 15 do Lavoura e demonstra o quanto André aprecia o discurso parco do avô em detrimento da verborreia paterna, que machuca mais que ensina, mais atrapalha que ajuda, mais desnorteia que conduz e não traz a luz tão apregoada pelo pai.

No conto “De madrugada”, narrado em primeira pessoa por uma personagem masculina, é instaurado o silêncio por parte do narrador e sua mulher. Na madrugada, enquanto os demais dormem silenciosamente, marido e mulher ocupam o mesmo espaço da casa, sem nenhuma comunicação entre eles. Ela pateticamente implorando por afeto, e o faz por intermédio de um bilhete: “Foi uma caligrafia rápida e nervosa, foi uma frase curta que ela escreveu […] ‘vim em busca de amor’” (NASSAR, 1997, p. 54-55). Ao que o marido responde também por escrito: “[…] não tenho afeto para dar […]” (NASSAR, 1997, p. 55). O silêncio para a mulher é estridente, angustiante, desesperador, pois acompanha a espera de uma demanda que não vem. Nesse conto, o silêncio, assim como o verbo colérico que jorra, desestabiliza a personagem que o recebe, provoca uma inquietação no leitor que passa a “esperar” uma informação que não chega.

Para Raduan Nassar, talvez o silêncio seja tão importante que ele próprio preferiu, como sua personagem de “Aí pelas três da tarde”, um redator de jornal, retirar-se da cena escritural, abandonando a literatura e deixando-se embalar por outras motivações. Seu silenciamento contundente, como o de André, não permite ao escritor fazer aparições públicas, dar entrevistas, tampouco comparecer a eventos literários. Sobre a literatura diz não ter mais nada a acrescentar. Assim, de gritos e silêncios compõem-se Raduan Nassar e sua obra sem muitos paralelos na literatura brasileira.

O Camões 2016, o mais importante prêmio literário para obras em língua portuguesa, atribuído a Raduan Nassar, entende, com um júri altamente qualificado, o rigor e a qualidade em que se ancora o projeto estético nassariano, o lugar que o conjunto da obra ocupa nas questões políticas e sociais e a oposição contra qualquer tipo de conservadorismo. Poderíamos empreender laudas e laudas para endossar ou legitimar a obra de Raduan Nassar e alocá-lo à categoria de um escritor dos excelentes, no entanto, o Prêmio galardoado ao brasileiro o faz por si só e endossa nossas palavras e as das críticas nacional e internacional.

 

 

REFERÊNCIAS
CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. São Paulo: Perspectiva, 2006.

NASSAR, Raduan. A conversa. Cadernos de Literatura Brasileira. Instituto Moreira Salles, São Paulo, n. 2, set. de 1996.

_______. Lavoura arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

_______. Menina a caminho. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

_______. Um copo de cólera. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Da cólera ao silêncio. Cadernos de Literatura Brasileira, Instituto Moreira Salles, São Paulo, n. 2,
set. de 1996.

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Flávio Adriano Nantes Nunes é doutorando do Programa de Pós-graduação em Letras, na área de Teoria e Estudos Literários, da Unesp de São José do Rio Preto, e professor assistente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS/CCHS).

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