Poética das sensibilidades

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Exposição apresenta sensibilidade e vigor

A Galeria Alcindo Moreira Filho do Instituto de Artes (IA) da Unesp, em São Paulo, SP, recebeu, de 24 de agosto até 3 de setembro último, a exposição M á Gua, de Priscila Leonel. Os trabalhos reunidos constituem uma autêntica viagem por uma poética das sensibilidades.

Em sua primeira individual, a artista, graduada em Artes Visuais pela Unesp e atualmente desenvolvendo mestrado na instituição, apresenta sensibilidade e vigor ao reunir trabalhos em cerâmica desenvolvidos nos últimos quatro anos, além de fotografias e um vídeo. Essa multiplicidade de linguagens bi e tridimensionais reforça o papel cada vez mais essencial do criador contemporâneo de transitar entre várias linguagens.

Geralmente em cores pastel, a modelagem e o resultado final das bonecas que Priscila apresenta constituem jogo que mescla, por um lado, figuras mais fortes, que surgem em busca de questões de identidade, com algumas mais delicadas e sutis que apresentam um mundo feminino de interioridades.

Nascida em 1987, Priscila tem um histórico pessoal de memórias afetivas no qual a arte se manifesta da maneira mais autêntica, por meio das brincadeiras com os irmãos e primos, tardes com a avó, leituras com a mãe e conversas  filosóficas com o pai. Assim foram sendo forjadas mãos e mente que interpretam o mundo.

A ambientação proposta pela artista evoca um atmosfera que oscila entre a nostalgia e os apontamentos de um futuro que se aproxima e que pode consumir a todos. Suas bonecas, postas sobre móveis antigos e envelhecidos, trazem reflexões sobre o tempo e parecem alertar continuamente contra todo tipo de intemperança.

 

 

O conjunto é um alerta para a ingênua necessidade de parar o tempo. Esse desejo, quase malvisto no universo contemporâneo, torna-se uma prática importante nos trabalhos de Priscila. Ela faz a cronologia estagnar. Isso ocorre não apenas pelas bonecas serem estáticas, mas, principalmente, porque elas apontam para um universo lúdico e infantil que tem um tempo próprio.

Talvez o principal mérito da exposição esteja no fato de as bonecas terem a capacidade de remeter para um tempo que não existe e para um local indefinido. Ao ver esses objetos cerâmicos, o observador os traz para o seu mundo interior. E essa jornada pode ser mais ou menos dolorosa ou prazerosa.

Depende da maneira como cada um lida com seu passado e suas lembranças. A boneca arrasta com toda força um turbilhão. Ter a serenidade de colocar neurônios e sentidos em posição de alerta para captar todas essas possibilidades demanda um certo exercício de controle de si mesmo e, acima de tudo, humildade para deixar-se levar pelas correntes do pensar, entregando-se às esferas do sentir.

O título da mostra, pleno de ambiguidades, permite um pensar mais aprofundado sobre as imagens geradas pela artista. Se existe a palavra mágoa, que gera reflexões sobre dor e sofrimento, há a substância água, que tudo lava e purifica. O universo da cerâmica comporta ambos, seja na dimensão existencial seja na física e material.

O conjunto de trabalhos propicia, portanto, um  percurso existencial. As bonecas que oscilam entre a força revolucionária e o lirismo do cotidiano mostram uma artista em pleno desenvolvimento. A sua formação aprimora-se a cada instante, a cada nova imagem ou boneca, num caminhar pela própria existência que constitui a trajetória de cada um de nós.

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Visite portfólio: <http://priscilalleonel.wixsite.com/portfolio>.
Contatos: <priscila.lleonel@gmail.com> e (11) 96935-0802

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