Antoni Gaudí, o arquiteto de Deus

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Artigo lembra 90 anos do falecimento do arquiteto catalão

O arquiteto catalão Antoni Gaudí (Réus, 1856 – Barcelona, 1926) registrou e viveu a Catalunha, sua natureza, sua história e cultura. A Espanha tem uma realidade bastante singular; com aproximadamente 40 milhões de habitantes, a nação possui quatro línguas oficiais: o espanhol (ou castelhano), o galego, o vasco e o catalão. Diferentemente do que se pensa, o catalão, o vasco e o galego são línguas, com gramáticas e culturas próprias.

Barcelona, La ciudad Condal, por ser a capital do Condado de Catalunya, é uma região habitada desde o ano 1000 antes de Cristo. Os povos ocupantes foram os sorotaptos, os celtas, os fenícios, os gregos, os iberos e, em 200 a.C., os romanos. A língua catalã vem do latim vulgar, mas é resultado do substrato de todas as anteriores que ocuparam a região chamada de Barcino, Ampuria e finalmente Barcelona. A Cataluña ou Catalunya (em catalão) abarca toda a costa nordeste da Espanha, de Valência a Barcelona, tem a cultura catalã arraigada em sua etnia. Enquanto o espanhol tem joias como Don Quixote, publicado entre 1605 e 1615 por Miguel de Cervantes, a cultura catalã tem Tirant lo blanc, publicado em Valência em 1490 (e que aparece citado no Quixote).

Gaudí é um nativo catalão, sempre teve orgulho de sua língua e cultura, escreve e esculpe palavras e frases em catalão em suas obras, lutou por esta cultura, chegou a ser preso e, principalmente, sua formação e atuação como arquiteto se faz neste ambiente. À primeira vista notamos Gaudí passeando pelo espaço gótico, pelas suas colunas, abóbodas, cruzetas, vitrais, ogivas, que estão ontologicamente ligados entre si. Em uma segunda aproximação, através de suas realizações – Bellesguard (1902), Casa Batlló (1906), La Pedrera (1912), Park Guell (1914) –, pode-se dizer que Gaudí é um arquiteto híbrido: neogótico, simbolista, Art-Nouveau. É um arquiteto do seu tempo, um período de mudanças, de rupturas, que consegue criar um estilo próprio a partir de um projeto coletivo nacional catalão, gerando obras onde estrutura e ornamentações se conjugam a fim de criar harmonia, beleza e transcendência. Através de soluções construtivas para problemas que a engenharia da época não estaria preparada para resolver, através de métodos tradicionais, Gaudí cria um neogótico dentro do chamado Modernisme catalão, que é fruto de uma junção/oposição do Romantismo, da Art Déco e de estéticas contemporâneas barcelonetas do final do século XIX.

Toda a obra de Gaudí foi intencionalmente esquecida durante a Guerra Civil Espanhola e colocada de lado durante a ditadura de Franco

A Cripta Guell é a obra-prima de Gaudí, nela está toda a sua experiência e pesquisa de projetos, materiais e, sobretudo, sua característica mais marcante, a integração do homem com a natureza. A começar pela sua localização, em um aclive, a Cripta se ajusta, insere-se e amolda-se à vegetação nativa e à topografia do terreno mediterrâneo e os mimetiza em suas colunas, tetos e vitrais, que desafiam as leis da gravidade. O balancear dos pinheiros incorporados nas colunas do átrio e da cripta, as janelas, os vãos, que são substituídos por vitrais coloridos, são símbolos do cristianismo, com cores determinadas para as suas divindades. Amarelo a luz do Pai Eterno, laranja o Espírito Santo e vermelho o filho Jesus Cristo. Os vitrais formam flores, formas geométricas através das quais a luz divina (vinda da própria natureza) invade o templo da Colônia Guell. Devemos lembrar que as estruturas de uma construção reagem à luz, seja ela o Partenon em Atenas ou as colunas gregas da sala hipostila do Park Guell. As colunas do Partenon em Atenas são ligeiramente curvas para dentro, para corrigir um defeito ótico que as faria parecer tortas, da mesma forma as colunas do Park Guell que parecem retas não o são. O Partenon foi construído segundo um ideal matemático de perfeição, que leva em conta o comprimento, a largura e a distância das colunas.

 

 

Esta luz catalã-mediterrânea é um elemento de preenchimento de espaços, de construção e destaque de contornos, relevos e ornamentos fundamental em Gaudí; e todo este emprego cromático típico do Gótico conduz ao divino, Deus como luz, forma e estrutura do mundo. As catedrais góticas e renascentistas do século XVI na Espanha começaram a utilizar os vitrais como suporte de símbolos e artifício de criação de uma realidade não material. Os vitrais de Gaudí não mostram nunca imagens sacras, mas sim as formas da natureza, flores, asas de borboletas. Os vitrais da Esglesia de Santa Coloma de Cervelló, chamada Cripta Guell, constroem um esquema de iluminação que está de acordo com as estruturas, que são irregulares como uma caverna, com nichos onde seres celestes se manifestam, levando-nos para uma experiência metafísica. Lembremos que em 1858 Bernadette Soubirous teve várias visões da Virgem Maria em Lourdes, nos Pirineus franceses. A gruta, chamada também de cripta, onde a aparição se deu está imediatamente abaixo da Basílica (gótica) erguida em 1878. Gaudí, fervoroso católico, certamente foi influenciado por esse acontecimento de sua infância, poucas vezes lembrado pelos seus biógrafos e estudiosos.

 

Cripta em Colônia  Guell (Santa Coloma  de Cervelló) (© Fotos: Wikimedia Commons)

Cripta em Colônia Guell (Santa Coloma de Cervelló) (© Wikimedia Commons)

 

As primeiras pesquisas de terreno e desenho para a pequena igreja obreira foram feitos em 1898, mas Gaudí levou dez anos construindo uma maquete funicular, que utilizava fios e pequenas bolsas de areia para construir um modelo físico do projeto, e as obras só foram iniciadas em 1908, sendo interrompidas definitivamente em 1914, quando Gaudí decidiu dedicar-se exclusivamente à construção da Sagrada Família. Conjuntamente com a construção da Cripta Guell, Gaudí realizou: La Casa Calvet (1899), o Park Guell (1900-1914), Bellesguard (1909), La Casa Batlló (1906), La Pedrera (Casa Milà, 1912) e, claro, La Sagrada Família (1883-1926), esta última também declarada Bien Cultural de Interés Nacional em 1969, 43 anos depois da morte do arquiteto. La Sagrada Família é celebrada mundialmente como obra-prima, que sintetiza toda a obra de Antoni Gaudí. Ledo engano, o templo tem interferências inclassificáveis na sua continuidade, pois, ao morrer atropelado por um bonde em 1926, somente uma das torres da fachada do nascimento estava terminada e muitas de suas esculturas ainda estavam sendo realizadas. A Cripta Guell é o manifesto arquitetônico gaudiniano por excelência e foi, e ainda continua, envolvido, numa bruma de esquecimento, que está sendo dissipada (sem muito sucesso) pelos estudiosos da Universitat de Barcelona, atuais proprietários e herdeiros culturais.

A Cripta Guell é a obra-prima de Gaudí, nela está toda a sua experiência e pesquisa de projetos

Toda a obra de Gaudí foi intencionalmente esquecida durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e colocada de lado durante a ditadura do limitado monolíngue Francisco Franco, que durou de 1939 até sua morte em 1975. Em 1936 a maioria das igrejas espanholas foram atacadas, incendiadas, muitas vezes com os padres e freiras dentro. O ateliê de Gaudí, que ficava dentro da Sagrada Família, foi incendiado, as maquetes e modelos em gesso destruídos e o túmulo de Gaudí, que está localizado na cripta desta mesma igreja sofreu uma tentativa de abertura. A Cripta da Colônia Guell foi invadida, muitos de seus bancos foram queimados, os vitrais totalmente destruídos e o altar incendiado.

 

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Park Guell, Barcelona, Espanha. (© Wikimedia Commons)

 

As primeiras ações de lembrar e recuperar a memória e principalmente a obra de Gaudí foram realizadas a partir da década de trinta. Em 1929 o arquiteto e professor de história da arte Josep Francesc Ràfols publicou a primeira biografia sobre Gaudí. Ràfols trabalhou nas obras da Sagrada Família até a morte do mestre. O segundo e mais importante arquiteto e teórico a recuperar e principalmente registrar a obra de Gaudí foi Cesar Martinell Brunet (1888-1973), que como jovem arquiteto conviveu com Gaudí dos anos 1910 até sua morte em 1926. Martinell foi o grande compilador das opiniões e ensinamentos de Gaudí, que teve que esperar o ano de 1951 para lançar seu primeiro livro sobre Gaudí. Lembrar que a partir de 1950 a Espanha franquista começa um movimento de “abertura” e relações exteriores, aproximando-se dos Estados Unidos e seguindo as regras de ajuste para entrar no que seria a União Europeia.

A Colônia Guell, onde foi construída a Cripta Guell a pedido do grande mecenas de Gaudí, Eusebi Guell, ficou na família até 1943, funcionou como fábrica têxtil até 1973 e foi comprada pela Universitat de Barcelona e pelo Ajuntament da cidade em 1980. Em 1960 os bancos originais serviram de modelo para reprodução dos que tinham sido destruídos; em 1965 o altar foi reformado, e em 1980 os vitrais foram restaurados.

Revisitar a Cripta da Colônia Guell de Santa Coloma de Cervelló é tomar contato com a história da arte, que Gaudí atualiza, em uma síntese estilística que transforma elementos imateriais como a língua catalã, sua cultura e seu cromatismo, em bases de uma arquitetura sem precedentes na história da humanidade. Sua obra merece ser celebrada nos 90 anos de seu desaparecimento físico, nas largas e arborizadas ruas de sua amada Barcelona.

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João Eduardo Hidalgo é doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid e professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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