Artigos enfocam escritor italiano

© Gabriel Bouys / Getty Images

Dario Fo conseguiu unir o teatro engajado politicamente dos anos 60 à tradição da Commedia dell’Arte

A MORTE DE DARIO FO, O ENFANT TERRIBLE DO TEATRO ITALIANO
Sérgio Mauro

Em 18 de outubro de 1997, publiquei no suplemento “Cultura”, do Estado de S.Paulo, um artigo sobre o Nobel que tinha sido concedido poucos dias antes a Dario Fo, que infelizmente acaba de nos deixar. Naquela ocasião, mencionei uma declaração dada pelo crítico italiano Carlo Bo, relacionando os comentários feitos pelo papa da época sobre as canções de Bob Dylan ao prêmio outorgado a Dario Fo, ressaltando que tanto Fo como Dylan acabaram, enfim, sendo “assimilados” ou “ digeridos” pelo “sistema” estabelecido, isto é, pelas hierarquias do poder político-religioso que sempre temeram as denúncias, as provocações e a fina ironia de ambos, do “giullare” (“menestrel” ou “saltimbanco”) italiano e do poeta do rock and roll ou do country rock. Por ironia do destino, o Nobel da literatura foi anunciado há poucas horas, tendo sido justamente conferido a Bob Dylan, e Dario Fo, outro Nobel, morreu aos 90 anos, depois de uma longa, polêmica e brilhante carreira no teatro italiano, como autor de peças memoráveis e também como ator, que impressionava pelo talento arrebatador e pela capacidade incrível de improvisação, nos palcos e também nas apresentações em público e em alguns programas da televisão italiana.

Dario Fo foi o Pasolini do teatro italiano. Conseguiu a proeza de unir o teatro engajado politicamente dos anos 60 à tradição da “Commedia dell’Arte”, teatro de matriz popular que se estendeu pela Itália e em parte da Europa do século XVI ao XVIII, fundamentado na capacidade de improvisação dos atores que, na ausência de um texto definitivo, geralmente contando apenas com um roteiro ou copião improvisado, deviam demonstrar habilidade e talento nas apresentações em público, em cidades pequenas do interior italiano e, com o tempo, na França e em outros países europeus. As peças de Dario Fo retomam inclusive o plurilinguismo da “Commedia dell’Arte”, em que os dialetos italianos, sobretudo setentrionais, fundem-se com a mais pura invenção, sempre associada à mímica e à gestualidade frequentemente histriônica, mas nunca vulgar ou banal. Em peças como Mistério Bufo, por exemplo, de 1969, os ingredientes sabiamente utilizados por Dario Fo enxertam na provocação aberta contra a cúpula do catolicismo o intenso trabalho linguístico do “grammelot” (uma espécie de sequência de palavras e sons esparsos aparentemente desarticulados mas que se tornam perfeitamente compreensíveis graças à gestualidade).

Uma das tragicomédias mais polêmicas e mais intensamente irônicas de Dario Fo foi, certamente, Morte accidentale di un anarchico (Morte acidental de um anarquista), de 1970, grande sucesso de público no mundo todo, inclusive no Brasil. A peça, de 1969, foi escrita logo após um dos tantos atentados terroristas que sacudiram a Itália no fim dos anos 60 e durante os anos 70: o famoso atentado de Piazza Fontana, em Milão, no qual uma bomba colocada num banco por um grupo extremista, de direita ou de esquerda, levou mais de 17 pessoas à morte. Pressionada pela opinião pública e pelos políticos, a polícia acabou culpando injustamente Pinelli, um operário anarquista, que acabou morrendo depois de um interrogatório, supostamente jogando-se de uma janela da delegacia. Dario Fo, assim como boa parte da opinião pública mais esclarecida da época, não aceitou passivamente a versão das autoridades e, no calor do momento, escreveu esta brilhante peça em que o principal personagem é simplesmente denominado “o louco”, sendo o único que conhece a verdade e que, travestindo-se continuamente, ora se faz passar por juiz-inspetor, ora por professor, ora por enviado do papa e, enfim, simplesmente, por “louco”, levando literalmente ao total desconcerto os investigadores policiais.

Um artista completo como Dario Fo deixa um legado indelével

Morte acidental de um anarquista impressiona principalmente pela finíssima ironia, já presente no título, e por constituir um dos raros casos em que uma obra de arte abertamente engajada e polêmica se refere, de maneira sarcasticamente explícita, a um evento histórico que acabou de acontecer, sem transformar-se em mero panfleto político e sem perder em originalidade e poder de denúncia. Entre os tantos temas “quentes” (para a época e, de certo modo, ainda hoje) estão a Guerra do Vietnam e, sobretudo, a construção das verdades que interessam ao poder político mediante o escândalo público midiático, a serviço dos interesses das classes dominantes, principalmente das elites mais retrógradas. Partindo de um caso local, o autor consegue brilhantemente dissecar a forma pela qual a opinião pública é mundialmente direcionada e moldada de acordo com o interesse de certos grupos que não hesitam também em manipular, de acordo com as conveniências do momento, a comoção e a indignação das pessoas comuns. Na comédia, o único a ter consciência dos fatos é justamente o que se denomina “louco”.

Por causa da predisposição à polêmica e às flechadas em todas as direções, à esquerda e à direita, Dario Fo e Franca Rame, a sua companheira de sempre, na vida e no teatro, falecida em 2013, foram perseguidos e sofreram todo tipo de boicote na Itália. As polêmicas sempre acompanharam a vida do grande autor-ator, inclusive quando foi premiado com o Nobel, em 1997. A sua morte, portanto, dará origem provavelmente a novas controvérsias a respeito das suas opiniões, abertamente de esquerda e contra todas as formas de opressão midiáticas e políticas. No entanto, mesmo os que nunca concordaram com a agressividade “elegante” das suas ideias, agora, mais do que nunca, deverão dar o braço a torcer e reconhecer o alcance universal das suas comédias ou tragicomédias e o seu inegável e imenso talento como ator.

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Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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DARIO FO VIVERÁ PARA SEMPRE
Roberta Barni

No dia 13 de outubro, 8h22: “O  Mestre Dario Fo se foi hoje, dia 13 de outubro de 2016 no Hospital Luigi Sacco de Milão, onde estava internado havia alguns dias por uma piora de suas condições de saúde”. Começa assim a triste nota com que seu grupo de colaboradores anuncia a morte de um dos maiores e mais famosos artistas que a Itália deu ao mundo ao longo do século XX. Fo era um militante do teatro, completo e poliédrico. Foi dramaturgo, ator, cenógrafo, diretor teatral, pintor e escritor. A Itália lamenta (não unanimemente, ça va sans dire) a perda de um grande homem de teatro: “o fim de uma carreira dedicada a lutar contra a afirmação que reza que a cultura dominante é a da classe dominante”. Essa afirmação basta para entender a atualidade de suas convicções.

Nem todos sabem, mas Dario Fo começou sua carreira estudando desenho, pintura, e depois arquitetura. Por isso, dizia ele, antes mesmo de escrever as suas histórias, acontecia-lhe desenhá-las.  As imagens e o acréscimo de algumas poucas cores, segundo ele, lhe davam a possibilidade de situar um pensamento, de contextualizar um problema. Além disso, assistente, na juventude, de grandes pintores do quilate de um Carrà, aprendeu conceitos que mais tarde levou para o teatro, e entre estes elencava a importância de não considerar nada como definitivo, a coragem de inverter uma ideia, mudar a perspectiva, colocar-se além do ponto de vista normal. E a arquitetura, mais tarde, lhe ensinou o valor da progressão do plano para a tridimensionalidade. Talvez tenha sido essa formação a dar a solidez perceptível a seu teatro. Mas a técnica extremamente eficaz com a qual concretizava o seu fazer teatral era, sem dúvida, a da Commedia dell´Arte, o maior legado da Itália a nosso conceito de teatro moderno.

Dario nasceu numa cidadezinha próxima ao lago Maggiore, onde viveu seus primeiros anos de vida. Mais tarde foi para Milão, onde fez radioteatro e, depois, seu primeiro espetáculo, Il dito nell’occhio [O dedo nos olhos, 1953]: uma comédia aparentemente musical, na verdade uma contundente sátira social e política que mais de uma vez sofreu censuras em suas turnês, e cujas encenações milanesas se deram precisamente no Piccolo Teatro, onde seu corpo foi velado há poucos dias.

Com sua irreverência, seu deboche, seu modo brincalhão de fazer comédia, Dario Fo viverá para sempre

Um início que se revelou presságio do que estaria por vir deste artista, ou saltimbanco, como gostava de se definir. A experiência teatral de Fo poderia ser resumida na fórmula eficaz de Franca Angelini, que lhe atribui o empenho em recuperar em seu teatro formas populares e militância política. Na década de 1950, marcante para Dario Fo, conhece Franca Rame, filha de uma família ligada ao teatro mambembe que, em 1954, se tornará sua companheira de aventura humana, artística e política. Em 1960, criam primeiramente a companhia Fo-Rame, e das farsas iniciais a companhia passa às comédias satíricas, todas sucessos de bilheteria, nas quais Dario também marca presença como ator. Em 1962, em sua passagem pela TV, a contundente crítica social de seus esquetes resulta na submissão do trabalho dos dois artistas a censura prévia. Ato de rebeldia, abandonam o programa, caindo num ostracismo da todo-poderosa RAI, que durará até 1977. O ano de 1968 marca o rompimento com o teatro “burguês” e a adesão aos então fervilhantes movimentos sociais e estudantis. Dois anos mais tarde fundam o grupo Colletivo La Comune, que a partir de 1974 ocupará um predinho art-nouveau da cidade de Milão que se transforma no centro da contrainformação política. Mistério Bufo, carro-chefe da companhia, estreia em sua primeira versão em 1969. Monólogo em grammelot (uma mistura de línguas e dialetos, ainda assim inteligível, que se torna uma das marcas registradas do ator), a peça é sucesso mundial. Os protestos e as chacinas na Itália dos anos 1970 convencem Dario ao ativismo em um teatro que espelha os acontecimentos do país. Surge assim Morte acidental de um anarquista.

 

Funeral de Dario (24/3/1926 – 13/10/2016) reuniu milhares de pessoas em Milão, cidade em que ele vivia. (© Sprea)

Funeral de Dario (24/3/1926 – 13/10/2016) reuniu milhares de pessoas em Milão, cidade em que ele vivia. (© Sprea)

 

Seria difícil apresentar aqui um elenco exaustivo de sua atuação no campo da arte ou da política. Em suma, a vida e a arte de Dario Fo e Franca Rame se entrelaçam indissoluvelmente, e estas à vida cultural, política e social de seu país. Os dois sofrem, não raro, duras consequências por suas posições políticas e por suas sátiras voltadas sem o menor receio contra os poderosos da vez. Foram processados inúmeras vezes, também sofrem censura inúmeras vezes; Fo chegou a ser preso, e Franca foi raptada e estuprada ainda naquela fatídica década de 1970 pela milícia da direita.

Quando em 1997 Dario Fo é agraciado com o prêmio Nobel de Literatura, a academia sueca esclarece: “Porque, seguindo a tradição dos bufões medievais, escarnece o poder restituindo dignidade aos oprimidos”. Assim, Dario mais uma vez incendeia os ânimos de seus detratores, enquanto sua fama chega ao ápice. Apesar de ter desacelerado seu ritmo depois de 1995, Dario ainda produziu espetáculos que já se tornaram clássicos de seu repertório, como Ubu rois, Ubu bas e L’anomalo bicefalo negli anni Duemila, sátira cujo deboche é dirigido ao então primeiro-ministro Berlusconi. A morte de Franca em 2013 será para Dario “a maior dor” de sua vida. Nos últimos três anos, dizia que a sentia por perto o tempo todo. No último inverno, quando uma rosa desabrochou em seu jardim completamente fora de época, Fo atribuiu o fato à presença de Franca. A sua equipe, na última sexta-feira, quando o mundo o perdeu, dizia que era um consolo pensar que finalmente a reencontraria.

Um artista completo como Dario Fo deixa um legado indelével. Prova disso é a impressionante quantidade de encenações de seus espetáculos que acontecem concomitantemente mundo afora. Com sua irreverência, seu deboche, seu modo brincalhão de fazer comédia – o único modo que ele considerava adequado para tratar de assuntos muito sérios – Dario Fo viverá para sempre.

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Roberta Barni é professora doutora de Literatura Italiana junto ao Departamento de Letras Modernas (DLM) da FFLCH da USP.

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