40 anos da Ecologia de Rio Claro

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Desafios e experiências de ser aluno da primeira turma de graduação em Ecologia no Brasil (1976-79)

Como todo adolescente, tive o desafio de escolher a carreira que pretendia na vida, e passei pelos mesmos dilemas que todo estudante de ensino médio enfrenta antes de ingressar na faculdade. Mas com uma diferença, eu queria fazer Ecologia, um curso que ainda não existia no país. Por ter nascido na zona rural de Tietê, SP, durante minha infância acompanhei a redução de nossas florestas e a caça de animais silvestres, pelos quais sempre tive paixão. Por sorte, entre 1974-75, fiquei sabendo que a Unesp de Rio Claro iria abrir um curso de Ecologia. Então prestei o vestibular em 1975 e, para minha alegria, meu nome estava na lista dos 20 aprovados.

Apesar de minha empolgação e do apoio de minha família, nem todos achavam que eu tinha feito a escolha certa. Por muito tempo os pais preferiam que os filhos seguissem a profissão de médico, a mais respeitada e bem renumerada naquele período. Levei em frente meus desafios, mesmo enfrentando uma situação financeira difícil de minha família. Até financiamento estudantil fiz para atingir minha meta. Para reduzir ainda mais os gastos, continuei morando com meus pais em Piracicaba e viajando de carona para Rio Claro. Às vezes a carona era ótima, nos deixando próximo da faculdade, mas na maioria das vezes nos deixava na entrada da cidade e daí “dedão” novamente até a faculdade ou proximidades.

No início do curso as aulas de biologia e ecologia eram no prédio do Horto Florestal de Rio Claro – um lugar encantador que dava para tomar um solzinho nos intervalos das aulas nos jardins do horto (Foto 1). Mas como o horto ficava na zona rural da cidade, chegar de carona foi um desafio ainda maior.

 

Foto 1 (Arquivo Pessoal)

Foto 1 (Arquivo Pessoal)

 

Mas os desafios não pararam por aí, a Unesp teve dificuldades de encontrar professores preparados para dar aulas para um curso de Ecologia. Nossas reclamações foram constantes e até fizemos movimentos para trocas de professores. Outro ponto que exigíamos era curso de campo, algo que conseguimos já no segundo ano. Fomos para uma reserva florestal estadual em Ubatuba, litoral de São Paulo (Foto 2). Após o segundo ano começaram outras preocupações: fazer estágios; futuro profissional; e regularização da profissão de Ecólogo (que continua até hoje). Atualmente existem mais chances de estágios e até oportunidades em consultorias ambientais. Mas, na época, o mais comum era estágios em universidades e institutos de pesquisa.

 

Foto 2 (Arquivo Pessoal)

Foto 2 (Arquivo Pessoal)

 

No último ano enfrentamos outro desafio: o nosso curso foi um dos pioneiros a exigir um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). E o que fazer então? Como era de Piracicaba, uma das regiões com grande influência de usinas açucareiras no Estado, e como ecólogo, me preocupava com a poluição dos resíduos das usinas nos cursos d’água. Somado a este fato, meu grande amigo e companheiro de curso Valdemar Luiz Tornisielo, hoje pesquisador do Cena, mas antes técnico de laboratório deste, sugeriu estudar o efeitos desses resíduos em populações de peixes, sob orientação do pesquisador Nelson Rodrigues. Levamos a ideia em frente e realizamos um estudo em parceria intitulado “Influência dos Efluentes de Usinas Açucareiras em Algumas Características do Ribeirão Cachoeira (Piracicaba, SP). Foi minha primeira experiência com pesquisa e desafios de campo também, já que fazíamos coleta de água e de peixes no período noturno, enfrentando estradas ruins no meio dos canaviais. Pior era durante noites chuvosas, em que utilizamos até corrente trançada nos pneus de um fusquinha para atingir os pontos de coleta.

Após a conclusão do curso saímos em busca de um emprego na área de formação. Como primeira turma realmente enfrentamos uma situação muito difícil, primeiro porque havia poucas oportunidades de emprego, depois porque mesmo os concursos públicos eram raros. Pior ainda para um novo ecólogo. Depois de muita luta e trabalhos não remunerados ou remunerados dentro ou fora da área profissional, consegui um estágio remunerado no projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (DBFFP) em Manaus, Amazonas. Fui para a Amazônia em dezembro de 1983, realizando assim meu sonho de conhecer essa região e trabalhar para a conservação dela.

No início trabalhei com o conhecido pesquisador Philipe Fearnside, do INPA, estudando os efeitos do desmatamento, focando em amostras de biomassa florestal e de solo. Depois, fui trabalhar com ecologia de primatas, minha área de interesse, com o apoio do primatólogo Anthony Rylands. Foi nesse período que realizei minha primeira pesquisa como profissional, estudando a ecologia do macaco-prego (Sapajus apella). Até hoje um estudo de efeito em ecologia de primatas na Amazônia, porque não é fácil habituar-se e seguir um grupo desse primata em uma floresta pouco produtiva, onde um grupo usa uma área de vida de em torno de 800 ha.

Após esse trabalho parti para um curso de pós-graduação em outros locais no Brasil, como na UFMG e na Unicamp, mas não estava feliz porque teria que cursar novamente disciplinas de ecologia. Finalmente, em 1993 surgiu a oportunidade de fazer doutorado no exterior, seguindo o exemplo de alguns amigos, como Carlos Peres e Mauro Galetti. Inscrevi-me no CNPq e fui aprovado com uma bolsa de doutorado no exterior pela Universidade de Cambridge na Inglaterra, sob orientação de David Chivers, iniciando em 1994 e terminando em 1999. Voltando ao Brasil, consegui uma bolsa Pós-doutorado no INPA e em 2002 fui contratado como servidor neste instituto.

Todo este histórico serve para informar e mostrar a todos que nunca devemos desistir de nossos sonhos, porque chegaremos lá um dia. Hoje e no futuro o profissional Ecólogo é e será imprescindível, trabalhando em prol do conhecimento e conservação dos recursos naturais, assim como na formação de recursos humanos, contribuindo na gestão pública e na conscientização da sociedade. Houve uma grande evolução nestes 40 anos de curso e as turmas mais recentes devem se orgulhar de fazer parte desta conquista, contando com profissionais competentes e um ensino teórico e prático de excelência.

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Wilson Roberto Spironello é ecólogo, Coordenação de Biodiversidade, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).

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