Quem tem medo de Virginia Woolf, aliás, de Donald Trump?

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Novo presidente foi escolhido para responder a um momento de exacerbação das neuroses de um povo que teme perder a hegemonia

Por que Donald Trump foi eleito? Porque deu respostas claras e precisas, embora destemperadas e extremamente agressivas, a questões pontuais que afetam o cotidiano americano: o medo do inimigo estrangeiro, seja ele o terrorista árabe, seja o imigrante mexicano (ou “latino”, como eles dizem) clandestino. As respostas repercutiram como uma martelada nos tímpanos das pessoas dotadas de um mínimo de informação, bom senso e cultura? Sim, mas não são os chamados “formadores de opinião” quem vence as eleições, cá como acolá.

Na crise violenta por que passa a democracia representativa no mundo todo, os vencedores das eleições são geralmente os que passam a imagem de homens (ou mulheres) duros e resolutos, que oferecem respostas precisas sem titubear, mesmo que aparentemente destituídas de qualquer conteúdo ou imersas no mundo do faz de conta, mesmo fruto de uma visão corrompida e corruptora. Berlusconi e Sarkozy na França, não muito tempo atrás, e agora Trump nos Estados Unidos. Berlusconi se elegeu vendendo a imagem do self made man, num país ainda fragmentado entre os diversos níveis de desenvolvimento das suas regiões, com forte influência da cúpula católica e do radicalismo à esquerda e à direita. Apresentou-se, portanto, como o homem dinâmico e acima de todos os partidos e ideologias, representando a Itália mais “europeia”, menos carola e mais progressista. Seus negócios escusos e o seu passado eivado de corrupção ficaram em segundo plano no imaginário popular e isso acabou se refletindo nas eleições dos deputados e senadores que o elevaram a primeiro-ministro. A trajetória de Sarkozy não difere muito, ao menos em alguns aspectos, pois ele se elegeu principalmente graças ao modo como diz ter enfrentado a verdadeira ação de guerrilha dos marginalizados de origem árabe na periferia de Paris. Enfim, ambos demonstraram-se aparentemente resolutos e sem meias palavras, duas características que abrem as portas do paraíso político e geralmente dão bons resultados nas eleições de quase todos os países do mundo. Uma vez no poder, porém, como se sabe, o discurso tende a se abrandar diante das evidências ou diante da oposição, mas o que valeu foi ter obtido o cargo e o resto não tem importância.

Com Trump não será diferente. Tendo catalisado as neuroses coletivas dos americanos médios, sempre às voltas com o medo de serem derrotados pelos inúmeros inimigos colecionados no longo histórico de guerras em que se envolveram, ou sempre apavorados pelo medo de perderem a hegemonia mundial, a sua vitória, embora surpreendente, não deve causar espanto ou apreensão. Em que medida Trump será diferente de Reagan ou Bush? Em quase nada, ao menos no momento em que ocupar o poder. O milionário de passado obscuro, tal qual Berlusconi, perceberá que o seu poder, embora grande, possui limitações, sofrendo o crivo de opositores e, mais timidamente, dos formadores de opinião. O propalado muro para separar os Estados Unidos do México e impedir a entrada dos clandestinos esbarrará nas verbas combalidas, mesmo num país tão rico. Terá de optar, enfim, por contentar uma ou outra das neuroses americanas, e não ambas ao mesmo tempo. Em poucas palavras: qual inimigo merece ser contido? O clandestino ou o terrorista árabe? Se desviar verbas do exército ou dos serviços de inteligência para a construção do muro, sofrerá não apenas a oposição dos democratas, mas também de muitos de seus eleitores.

Quem se elege com bravatas e com demonstrações de assumida grosseria em público (mais uma semelhança entre Berlusconi e Trump) é como aquele que semeia vento e que um dia colherá tempestades. Por mais frágeis que sejam as democracias mundo afora, a tendência é que o povo se iluda apenas temporariamente com os aventureiros que se aproveitam dos momentos de crise ou da disseminação de neuroses coletivas para a obtenção do poder. Donald Trump definitivamente não assusta. Não basta dizer que foi eleito pela mentalidade retrógrada e conservadora do profundo interior americano contra a vontade dos bens pensantes da Costa Leste. Ele foi escolhido para responder a um momento de exacerbação das neuroses de um povo que teme perder a hegemonia. Trata-se apenas de uma nuvem passageira que passará, ao menos assim espero.

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Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.

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