Crônicas de uma Vida não prevista…

Janeiro de 2017 – Dois milhões e meio de cidadãos americanos marcham com os emblemáticos “pussyhats” por grandes cidades em todo o território estadunidense em manifestação contra misoginia, racismo, intolerância religiosa, sexual e agressões aos direitos humanos e civis de toda ordem, principalmente contra os imigrantes e homeless.

Esta marcha juntou pessoas de classe, cor, credo, orientação sexual e etnias as mais variadas. Celebridades, militantes históricos e “desconhecidos”. Um mote muito presente nos discursos e cartazes implicava diretamente a política do atual presidente eleito Donald Trump, além de seus discursos inflamados que incitam, exatamente, a exacerbação de posições discriminatórias contra minorias, imigrantes, mulheres…

Dezembro de 2016 – dia de Natal… o ambulante Luiz Carlos Ruas, o Índio, foi espancado até a morte por dois homens, em uma estação de metrô da Capital Paulista, por tentar defender uma travesti que estava sendo perseguida e agredida por eles. Não havia seguranças no momento da agressão, testemunhada por 14 pessoas presentes, que fizeram o reconhecimento dos agressores. Um deles, quando indiciado, disse considerar-se “uma boa pessoa”.

Janeiro de 2017 – Veneza, Itália. Um jovem refugiado da Gâmbia debate-se nas águas do Canal Grande, em evidente processo de afogamento. Turistas de um barco passante gritam impropérios desejando que se afogue, sem fazer qualquer gesto para salvá-lo. Outro barco próximo joga-lhe um salva vidas e o jovem é recolhido ainda com vida. Do barco, muitos filmavam com seus celulares a tragédia em andamento. Países diferentes, fatos diferentes. O que podem ter em comum?

No caso da “marcha” e seu expressivo número de marchantes, parece haver um hiato temporal entre a manifestação e a real possibilidade de intervenção na realidade. Dado o motivo político Trump, pergunto-me onde estavam essas pessoas no dia da votação… Onde estavam quando os candidatos foram escolhidos em cada partido, em suas convenções…

Seriam elas suficientes para “fazer diferença”?

Quatorze pessoas testemunharam o espancamento do ambulante. Seriam elas suficientes para impedir o ocorrido? Para “segurar” dois homens enfurecidos? Para espantá-los, chamar os seguranças? Seriam elas suficientes para “fazer diferença”?

Do barco em Veneza, os insultos destinados ao jovem refugiado não foram acompanhados de boias salva-vidas… Claramente bradaram desejando-lhe a morte. Outro barco o socorreu, quase que sem tempo. Por muito pouco, fizeram diferença.

Ao mesmo tempo que se fala do valor da Vida estampamos nossa dúvida nos atos cotidianos, nas manchetes inverossímeis, nos muros que se erguem e que não são de concreto, mas têm a maior efetividade em nos separar do outro… como um objeto ao qual não temos que nos ater ou prestar atenção, muito menos cuidar.

Não há respostas, aliás as perguntas só aumentam e se complexificam… Estamos tão coisificados pelas imagens que tudo acaba parecendo ficção? Estamos tão distantes de nossa efetividade de ação que nos tardamos demais para agir? Temos essa pouca confiança na força de nossa vontade “fazer diferença”?.

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Marília Muylaert é professora do Departamento de Psicologia Clínica da Unesp de Assis.

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