Crise nas relações EUA e América Latina

O anúncio da construção do muro veio em um momento incerto no futuro das relações bilaterais entre os EUA e a América Latina

E AGORA, MÉXICO!
Marcela Franzoni

Donald Trump parece ter pressa de implementar uma de suas principais promessas de campanha, a construção de um muro na fronteira com o México. Assim, cinco dias após assumir o governo, no dia 25 de janeiro, assinou um decreto que prevê a sua construção, assim como a contratação de mais de cinco mil agentes federais para o patrulhamento da fronteira.

A ideia de construir uma barreira física entre os dois países não é nova. Em cerca de um terço da fronteira, em torno de 1.080 quilômetros, já existe um cercado que divide o México dos Estados Unidos. Construída em 2006 por 20.000 trabalhadores, a barreira metálica já existente é diferente da proposta por Trump, que quer um muro de concreto e capaz de conter a entrada de imigrantes ilegais e aumentar a segurança no país. Durante a assinatura do decreto presidencial, reforçou o que já tinha dito durante a sua campanha, que o México irá pagar integralmente pelo muro. Ademais, Donald Trump afirmou que o planejamento da medida começará imediatamente, enquanto sua construção será em meses. Para o presidente, a medida também beneficiará o México, ajudando-o a controlar a imigração ilegal da América Central e os cartéis de droga.

Horas depois do decreto, Enrique Peña Nieto, presidente do México, fez um anúncio oficial condenando a decisão do governo vizinho, reafirmando que o México não pagará por ele. Disse ainda que o país não acredita em muros, que longe de uni-los, vai dividi-los. Ademais, afirmou estar tomando medidas para proteger os imigrantes mexicanos residentes nos Estados Unidos, oferecendo-lhes maior amparo legal.

O anúncio da construção do muro veio em um momento já bastante incerto no futuro das relações bilaterais entre os dois países. Estavam em Washington o secretário mexicano de Relações Exteriores, Luis Vedegaray, e o de Economia, Ildefonso Guajardo. É o início de um longo processo de renegociação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte, composto pelo México, pelos EUA e pelo Canadá. Das primeiras conversas dos secretários com os assessores de Donald Trump, pouco foi divulgado à imprensa. Luis Videgaray classificou o dia como “de contrastes”, já que se disse surpreendido pela decisão do muro, enquanto teve sinais positivos da equipe de Donald Trump.

Diante do cenário incerto, erguem-se vozes na academia, no governo e entre o empresariado para a unidade nacional mexicana

Até o pronunciamento oficial, ainda estava agendada visita de Peña a Washington, no dia 31 deste mês, mesmo diante da mobilização doméstica para que o presidente a adiasse. O Partido da Ação Nacional (PAN) no Senado pediu que o presidente reconsiderasse, assim como fez Jorge Castañeda, ex-secretário de Relações Exteriores, e a possível candidata presidencial para 2018, Margarita Zavala. Contudo, no dia 26 de janeiro, em resposta ao pronunciamento de Enrique Peña Nieto, Donald Trump colocou em uma rede social que, se o México não tem a intenção de pagar pelo muro, seria melhor que cancelasse a reunião. Então, logo depois, Enrique Peña Nieto anunciou que não irá aos Estados Unidos, apesar de reiterar sua disposição para trabalhar com o vizinho.

O cancelamento da reunião com Donald Trump expôs o atual nível de desacordo entre os dois governos, ademais da enorme pressão doméstica que enfrenta Enrique Peña Nieto. Colocou-se em dúvida também a real capacidade dos agentes mexicanos de negociar com a equipe de Trump e, mais, de efetivamente conseguirem um acordo onde as duas partes ganhem. Apesar de o presidente Enrique Peña Nieto insistir em negociar, parece claro que há temas que não serão postos na mesa, temas que o México vem demandando historicamente, como a questão da segurança e a migratória.

É provável que Enrique Peña Nieto estivesse esperando os futuros desdobramentos das conversas dos secretários nos Estados Unidos para que pudesse tomar uma decisão definitiva. Para sua posição, a visita colocava-se como uma grande encruzilhada: se fosse acordada alguma medida que beneficiasse o México concretamente, podia ser que viesse a conseguir maior apoio interno, que hoje tem seus níveis mais baixos depois do aumento do preço da gasolina, decretado no dia 1o de janeiro. Se nada fosse acordado e ainda houvesse desencontros de informações, como na visita de Trump ao México, em agosto, reforçaria sua posição como um governo débil, comprometendo ainda mais sua base de apoio no país.

Diante do cenário incerto, erguem-se vozes na academia, no governo e entre o empresariado para a unidade nacional. O fato de estarem sendo abertas negociações entre os países do Nafta mostra que pode ser um momento de redefinir o papel do México no mundo, incluindo suas relações com os EUA e com a América Latina. O Secretário de Relações Exteriores já afirmou que, caso a renegociação do Nafta não gere algo produtivo para o México, o país não descarta a possibilidade de sair do Tratado.

Há, portanto, muitos desencontros e desacordos de qual seria o melhor caminho a seguir. O governo mexicano, além de entender-se com os negociadores estadunidenses, terá que agregar posições de vários grupos domésticos que conclamam participação nas negociações e pedem transparência na divulgação dos temas que serão discutidos. A unidade nacional passaria, portanto, por repensar uma nova estratégia de desenvolvimento socioeconômico, assim como a política exterior, reavaliando a posição internacional do México.

A conjuntura é bastante complexa. Os mexicanos deparam-se com a conjunção de dois processos simultâneos e que irão impactar na posição do país nas negociações: um governo desacreditado internamente, somado a uma posição no país vizinho fortemente antimexicana. Este é, portanto, o maior desafio da política externa do México dos últimos anos, que, ainda que gere cismas, apresenta um forte elemento que os une.

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Marcela Franzoni é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP)

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Pode ser um momento de redefinir o papel do México no mundo, incluindo suas relações com os EUA e com a América Latina (© jamesgroup)

Pode ser um momento de redefinir o papel do México no mundo, incluindo suas relações com os EUA e com a América Latina (© jamesgroup)

UM MURO ENTRE OS EUA E A AMÉRICA LATINA
Lívia Peres Milani

A decisão de Donald Trump de seguir adiante com sua promessa sobre o muro entre o México e os Estados Unidos – e de buscar mecanismos para que o país ao sul pague pelo projeto – estremeceu as relações bilaterais. O presidente dos Estados Unidos reavivou a questão no dia 25 de janeiro, ao assinar ordem executiva que determina o início da construção. Posteriormente, o encontro entre os presidentes dos países norte-americanos foi adiado. Enrique Peña Nieto divulgou vídeo reiterando que seu país não pagará pelo muro. Trump, por sua vez, discursou de forma teatral e voltou a reiterar que o pagamento será feito pelo vizinho. Trump ainda criticou o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta) e considerou a taxação de produtos mexicanos como forma de financiar o projeto, elevando o tom e causando tensão diplomática entre ambos os países. Como consequência, a percepção negativa dos EUA no México cresceu e o futuro presidenciável Andrés Manuel López Obrador, El Peje, nacionalista e de esquerda, viu-se com a popularidade aumentada.

A atuação unilateral de Trump coloca em risco uma das principais alianças estabelecidas na América Latina. Na última década, as relações interamericanas foram conturbadas. Diversos governos – especialmente os da Venezuela, da Bolívia e do Equador – pronunciavam-se de maneira anti-imperialista e buscaram distanciar-se dos EUA. Nos dois maiores países do continente – Brasil e Argentina – os últimos anos também assistiram a um esforço de afirmação nacional e ambos buscaram diversificar parcerias com potências extrarregionais, especialmente a China, embora também procurassem manter boas relações com a potência americana.

Contudo, o distanciamento entre a América Latina e os EUA não foi uma tendência continental, já que a potência estabeleceu alianças sólidas, especialmente com a Colômbia e o México. As alianças com ambos envolviam, além do livre comércio, o combate ao crime organizado e garantiram a presença militar da potência na região. Além disso, o afastamento entre EUA e os outros países da América Latina mostrava sinais de reversão. No Brasil e na Argentina há uma busca de aproximação bilateral pelos governos de Michel Temer e Maurício Macri. Os países do eixo bolivariano enfrentam dificuldades importantes e a ideologia que os levou ao poder mostra sinais claros de esgotamento. Considerando esse contexto, a tendência parecia ser de uma aproximação continental e de aceitação da hegemonia dos EUA por parte do Sul. Entretanto, a nova variável dificulta a concretização de tal tendência. Ao impor dificuldades ao México e agir de maneira unilateral no assunto, tratando o país como um pária, Trump deixa explícitos os riscos de uma escolha estratégica na qual a potência hegemônica aparece como aliada principal.

A América Latina não pode se desvincular dos Estados Unidos, as economias entre ambas as regiões são fortemente interdependentes, de forma desfavorável aos países do sul. A diferença de poder é clara e perpassou toda a história, tornando os EUA o grande outro para os países da região. As elites e as classes médias latino-americanas têm os Estados Unidos como modelo e as relações de cooperação militar são fortes e arraigadas. Por outro lado, a contraposição com a potência assume papel central na configuração da noção de “latino-americano” e os movimentos de afirmação nacional firmaram-se em retórica anti-imperialista. Quando passaram por dificuldades, tais movimentos buscaram culpar os Estados Unidos. São essas tendências e movimentos nacionalistas que a postura unilateral de Trump, se mantida ao longo do tempo, tende a intensificar, tornando cada vez mais difícil uma aceitação plena da hegemonia estadunidense naquela que mais fortemente é sua área de influência.

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Lívia Peres Milani é mestre e doutoranda em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais “San Tiago Dantas” (Unesp, Unicamp, PUC-SP) e graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista – Unesp. Participa do Grupo de Estudos em Defesa e Segurança Internacional (Gedes/Unesp)

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