Dois minutos e meio para o Fim do Mundo

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A questão nuclear merece destaque pela estagnação nas medidas para o desarmamento e pela deterioração do cenário internacional para o setor

No dia 26 de janeiro de 2017, o Comitê de Ciência e Segurança do Bulletin of the Atomic Scientists anunciou que o mundo está um pouquinho mais próximo do Fim: o relógio que marca essa trajetória da humanidade, conhecido como Doomsday Clock, está a apenas dois minutos e meio da meia-noite.

Desde 1947, o Bulletin of the Atomic Scientists anuncia anualmente uma estimativa de quão elevado é o risco de um evento de grandes proporções capaz de desestruturar fundamentalmente a civilização humana. Não se trata, é evidente, de uma estimativa literal: as chances de o mundo acabar nos próximos dois minutos e meio são, felizmente, remotas. Trata-se, antes, de uma representação figurativa sobre as grandes ameaças que têm enorme potencial destrutivo para nossa forma de vida. É, assim, uma forma de chamar a atenção do público, inclusive de lideranças políticas, para problemas que precisam ser enfrentados e que, frequentemente, requerem um nível significativo de cooperação entre as nações.

Neste aniversário de 70 anos do Doomsday Clock, o Comitê responsável por mover os ponteiros do relógio expressou seu pessimismo frente ao contexto global. Os dois principais vilões apontados pelo Comitê foram os armamentos nucleares e as mudanças climáticas. Para a questão climática, apesar de algum esforço internacional no sentido de reduzir as emissões de carbono, principalmente através do Acordo de Paris, assinado no ano passado, as medidas adotadas ainda são insuficientes. Além disso, a postura política do novo presidente estadunidense Donald Trump, que já fez declarações negando a existência dessas mudanças climáticas, tem sido vista como alarmante pelos grupos atentos à questão, aumentando o pessimismo internacional de que políticas ambientais mais sustentáveis venham a ser implementadas.

Por sua vez, a questão nuclear mereceu destaque não apenas por uma estagnação nas medidas para o desarmamento, mas, sim, por uma deterioração do cenário internacional para o setor. A Rússia e os EUA, países que detêm os dois maiores arsenais nucleares do mundo, e que iniciaram um processo de modernização desses arsenais, apresentaram um nível crescente de tensão ao longo do último ano, algo que preocupa, mesmo que as chances de um conflito armado entre as duas potências sejam remotas. Também aqui a eleição de Trump entrou no cômputo do Comitê, devido à sua postura aparentemente menos avessa ao emprego de explosivos nucleares do que a de seu antecessor. Além disso, Trump indicou sua intenção de rever e possivelmente pôr fim ao acordo nuclear assinado com o Irã em 2015, o qual estabelecia restrições ao programa nuclear iraniano em troca da suspensão de sansões internacionais impostas ao país. A eliminação do acordo poderia levar o Irã, que tem cumprido todas as determinações de forma adequada, a retomar sua investida para a aquisição de armamentos nucleares.

Também a Coreia do Norte mereceu a atenção do Comitê do Bulletin of the Atomic Scientists em 2016. O país realizou dois testes nucleares, bem como inúmeros testes de mísseis, indicando avanços substanciais na sua capacidade técnica nos dois setores e sua intenção de dar continuidade ao desenvolvimento de armas de destruição em massa e veículos de entrega com alcance cada vez maior.

Mesmo diante desse cenário, o tom apocalíptico não deve ser levado longe demais. O Doomsday Clock é um símbolo do contexto, mas ele não significa que haverá um cataclismo nuclear a qualquer momento, ou que o mundo se tornará um grande deserto dentro de alguns anos. Seus ponteiros próximos à meia-noite devem nos lembrar dos perigos que são reais e precisam ser tratados com seriedade, e também nos alertar de que a responsabilidade pelo futuro é compartilhada por todos os cidadãos e pertence a cada indivíduo.

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Raquel Gontijo é doutoranda pelo Programa de Pós–Graduação San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC-SP), pesquisadora do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (Gedes) e professora de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

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