Um mergulho no Oscar 2017

A Group of Shiny Elegant Golden Award

Um conjunto de 14 textos enfoca a premiação e filmes indicados em diversas categorias

A LUZ DO LUAR NO FINAL DO ARCO-ÍRIS
João Eduardo Hidalgo

A 89.ª Celebração do Prêmio Oscar, ocorrida no último dia 26 de fevereiro, foi bastante diferente das últimas edições, alguns erros na apresentação, o testemunho contundente da extraordinária atriz Viola Davis e a pândega premiação final, de melhor filme, não serão esquecidos.

O filme favorito da noite, La La Land, dirigido por Damien Chazelle, indicado em 14 categorias, acabou levando seis prêmios para casa; os mais importantes o de Melhor Diretor (Chazelle), Melhor Atriz, Emma Stone, e, sendo um musical, o de Música Original e Trilha Sonora. Emma Stone é uma atriz carismática e talentosa que terá uma grande carreira.

Já o escolhido como Melhor Ator, Casey Affleck, por Manchester by the sea (2016), me parece um erro, ele tem muitas limitações de interpretação, é monocorde e tem uma voz ruim, esperemos o futuro. Denzel Washington faz uma interpretação de muita força em Fences (2016) e era de longe o melhor candidato, a decepção ficou estampada em seu rosto. Como exemplo de sua performance, lembro uma cena do início do filme, quando o seu filho vem pedir-lhe dez dólares emprestados, a variedade de expressões e emoções que ele mostra com a sua voz, suas expressões faciais, sua movimentação nos ambientes, com falas quilométricas, numa cena que dura mais de dez minutos é antológica para a história do cinema. E o seu embate dramático com Viola Davis é algo essencial para qualquer estudante de audiovisual. Ela ganhou o merecido prêmio.

A grande surpresa da noite foi o reconhecimento da qualidade do filme Moonlight (2016), que recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali, Melhor Roteiro Adaptado e principalmente o mais importante da noite, o de Melhor Filme, merecidamente. O prêmio entra para a história do Oscar pelo engano cometido com os envelopes da premiação, pura confusão que o nervosismo causa nestes eventos. La La Land chegou ao Oscar consagrado, mas o grande vencedor no evento foi Moonlight. A luz do luar ofuscou o arco-íris.

O prêmio de melhor documentário em longa metragem para O.J.: Made in America foi um grande erro, o pretenso trabalho é uma ficção construída com elementos da vida do esportista e showman, é didático demais, detalhista demais e se esvazia nas mais de sete horas de duração. Prevalece a voz dos entrevistados, um suposto julgamento das escolhas de O.J., que nunca teria querido representar os negros e apresentava-se como um não negro e não branco, a sua raça seria ser O.J. Pífio documentário de uma tragédia que já não tem nada a dizer, só apresenta uma vida que nunca chegou a ser extraordinária, só na tragédia atingiu grande proporção.

Na categoria de filme estrangeiro venceu o agora convencional cinema iraniano, que está se esvaziando de sua principal marca característica, que era a presença de atores não profissionais e histórias que eram difíceis de separar da desses indivíduos-atores. A encenação controlada e verborrágica vai descaracterizar a inovação que este cinema trouxe para o cenário do cinema mundial. The salesman (O apartamento, 2016) é o correspondente da world music no cinema.

 

Escrito e dirigido por Barry Jenkins, Moonlight: Sob a Luz do Luar, retrata a história de Chiron em duas fases da vida. Na foto, o ator mirim Alex R. Hibbert acompanhado pelo ator Mahershala Ali. (© Diamond Films / Divulgação)

Escrito e dirigido por Barry Jenkins, Moonlight: Sob a Luz do Luar, retrata a história de Chiron em duas fases da vida. Na foto, o ator mirim Alex R. Hibbert acompanhado pelo ator Mahershala Ali. (© Diamond Films / Divulgação)

 

Os dois filmes que estavam disputando a preferência de público e crítica na categoria eram Um homem chamado Ove (A man called Ove, 2016), da Suécia, e Toni Erdmann (2016), da Alemanha, que são superiores ao premiado. Toni Erdmann tem um roteiro inovador, sem pontos de virada, desenvolvimento ou clímax, as cenas se sucedem sem serem atreladas às anteriores ou ligadas a um final ou desfecho. Mostra que a vida moderna é assim, complexa e sem resoluções fechadas ou definitivas. Um homem chamado Ove fala da angústia existencial que costuma assolar os habitantes dos países nórdicos, propensos a crises de idade, pessoais, tudo isto com algum eco de Ingmar Bergman. O longa Tanna (2016), representante da Austrália, estaria melhor em um festival de filmes etnográficos. Por mais que tenha ficção prevalece o registro da cultura, da língua e do ambiente dos nativos do Pacífico, que representam o seu dia a dia na obra. Nas sinopses do filme é dito que um dos diretores, Bentley Dean, viveu entre eles na ilha de Tanna, no Pacífico Sul; Robert Flaherty já viveu com os esquimós no extremo norte do Canadá para produzir o primeiro documentário da história do cinema, Nanook, o esquimó, de 1922. E em 1926 ele ainda realizou Moana com os nativos de Samoa, que neste ano voltou como animação. Tanna não tem nada de novo e está na categoria errada, o filme é um documentário (antropológico).

A grande surpresa foi o reconhecimento da qualidade do filme Moonlight, que recebeu os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme

O filme mais interessante (e esquecido) dos cinco era Land of mine (Under sandet, 2015), literalmente “Sob a Areia”, da Dinamarca. Em uma conhecida plataforma de avaliação de audiovisual, o filme alcançou oito pontos, de um máximo de dez. A história é real, fala da utilização de prisioneiros de guerra alemães na limpeza das minas que foram colocadas pelos nazistas nas praias do país, para evitar a chegada das tropas aliadas. Estes soldados são extremamente jovens e estão assustados e cansados. Eles fazem parte da loucura final germânica que conclamou o povo a participar de uma “Guerra Total”. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, criou o Volkssturm (Exército do Povo) incitando homens entre 13 e 70 anos a defenderem até a morte o seu país. A Dinamarca ficou anexada entre abril de 1940 e maio de 1945, teve uma ocupação branda, já que o seu povo era considerado nórdico, de similar procedência racial ariana. Já os dinamarqueses não tinham o mesmo apreço para com os alemães e inclusive não entregaram seus judeus para o regime, enviando-os para a Suécia. Este não alinhamento ao regime do Führer explica a violência no tratamento destes jovens que obedeciam mais aos seus familiares e ao regime do terror, do que acreditavam numa superioridade germânica, pois foram arregimentados num momento de desespero e de decadência.

Em 1942 Goebbels escreveu o roteiro do filme Kolberg (1945), mostrando a resistência heroica da cidade de Kolberg, na Prússia alemã, ao avanço de Napoleão em 1813. Liderando a população está o prefeito da cidade, Joachim Nettlebeck, de orgulhosos 70 anos declarados, vivido pelo ator Heinrich George, que tinha meros 52 anos. Uma propaganda esquizofrênica e desonesta que incitava a população a morrer lutando pela Alemanha. O filme foi um fracasso e a adesão ao Volkssturm se deu pela força. No filme Under sandet este sentimento está estampado nos olhos tristes, arregalados e rostos feridos desses órfãos alemães.

A escolha do tema é bem pouco convencional, o diretor Martin Zandivliet mostra o destino desses jovens que foram forçados a desenterrar os dois milhões de minas que seus conterrâneos tinham colocado nas praias danesas. Estas praias são mostradas com uma tela panorâmica (formato 2:35, os canais a cabo têm formato 1:69, para comparar) e lembram as fotografias de guerra de Robert Capa, inclusive com um colorido desbotado, como as que ele produziu com os primeiros filmes coloridos que circulavam durante o período. As locações são as reais praias de Oksbollejren ocupadas pelos alemães na época. Os próprios oficiais dinamarqueses acabam entendendo que esses jovens nada tinham a ver com a geração que causou a guerra e o sofrimento de tantos seres humanos e acabam sentindo compaixão pelo triste destino deles, mas pouco podem fazer. Pena que este filme nem estreou nos cinemas brasileiros, vale a pena tentar assisti-lo junto com os dois grandes vencedores do Oscar deste ano.

 

João Eduardo Hidalgo é doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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ESTRELAS ALÉM DO TEMPO: ARISTOCRACIA MATEMÁTICA
Eli Vagner Francisco Rodrigues

O título Estrelas além do Tempo (EUA, 2017 – Dir. Theodore Melfi) não parece ser uma boa expressão para verter em português o original Hidden Figures. Mesmo considerando que os títulos não devem ser, necessariamente, traduções e sim adaptações ou versões para um mercado específico. O título em português parece não dizer muita coisa sobre o filme. A obra, no entanto, diz bastante sobre temas que já conhecemos bem, segregação racial e preconceito de gênero. Por mais que estes temas sejam de grande importância e figurem como motivos culturais contemporâneos por excelência, não são suficientes, nesse caso, para levar o filme ao status de grande obra cinematográfica. A condução soa, a todo tempo, marcada por um modelo bastante conhecido e repetido, mesclando cenas pensadas para provocar indignação com momentos de descontração, sob apelos musicais e cômicos. Por esse motivo o filme já foi rotulado como um “feel-good movie that hurts”. Vale destacar que o aspecto “feel-good” deve muito à boa trilha sonora de Hans Zimmer, Pharrell Williams e Benjamin Wallfisch.

A história é baseada na experiência de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), uma matemática afro-americana que participou do grupo de engenheiros e matemáticos responsáveis pelo lançamento dos foguetes que colocariam o primeiro americano na órbita terrestre. Ao lado das colegas Dorothy Vaughn e Mary Jackson, Katherine Johnson teria sido peça fundamental neste que foi o primeiro contragolpe americano na corrida espacial (os russos já tinham colocado Yuri Gagarin na órbita terrestre meses antes). A Nasa contava então com equipes compostas por “computadores humanos”, pessoas responsáveis pelos inúmeros cálculos que envolvem atividades relacionadas à astronomia e à astronáutica.

Vale esclarecer que o grupo de “computadores humanos” retratado no filme existiu porque a agência espacial americana ainda seguia normas que distinguiam os funcionários negros dos brancos, separando os banheiros e refeitórios, e não porque a agência tivesse criado um grupo de trabalhadoras negras para calcular lançamentos. Um dos problemas enfrentados pelas profissionais do cálculo era a falta de banheiros para negros em pontos da planta da agência espacial nos quais não se esperava que negros viessem a trabalhar.

A impressão de um absurdo social retratado em Estrelas além do tempo se acentua, sobretudo, por se tratar de uma história que se passa em um ambiente supostamente ligado à ciência e ao conhecimento

Em uma cena que acaba se tornando recorrente no filme, explorada tanto pelo aspecto de gritante injustiça quanto pelo aspecto cômico, Katherine Johnson tem que se deslocar aproximadamente 800 metros de sua mesa de cálculos para usar o banheiro. A cafeteira da sala de trabalho da equipe responsável pela missão que levaria John Glen (primeiro astronauta americano a entrar em órbita terrestre) era vedada ao uso de negros (colored). Estas condições de trabalho somadas a inúmeras medidas segregacionistas dão o tom de um absurdo de divisão racial e social em que viviam os Estados Unidos ainda no início da década de 1960.

A impressão de um absurdo social retratado no filme se acentua, sobretudo, por se tratar de uma história que se passa em um ambiente supostamente ilustrado, pois ligado à ciência e ao conhecimento. O grande público, que provavelmente não conhece ambientes científicos, pode estranhar o fato de que homens de ciência possam se comportar de maneira retrógrada e preconceituosa. O filme chega até a desenvolver esse aspecto, o fato de que os ambientes científicos não estão imunes a tendências sociais e políticas as mais diversas. Em vários momentos a direção insiste em deixar claro que fazer parte de uma comunidade científica não constitui nenhum atestado de moralidade.

O filme de Theodore Melfi traz, além das mensagens ativistas (direitos civis, feminismo), causas mais do que legítimas, uma verdade ainda mais pungente, e não tão agradável para a maioria de nós. A saber, a de que existe, e sempre existiu, uma “aristocracia matemática” no mundo em que vivemos e o fato de que, como toda a aristocracia, ela é vedada à maioria. Nesse sentido a maior segregação é a efetivada pela própria natureza. Não há luta política que mude este estado de coisas. A aristocracia matemática se revela a todos desde os primeiros anos escolares. Sabemos que uma pessoa é mais inteligente que a média se ela tem melhores resultados em matemática. Essa distinção independe de classe, gênero, cor, credo ou sexualidade.
Katherine Johnson provou que a natureza e uma formação científica sólida não se curvam a preconceitos construídos culturalmente. O filme está muito aquém de seu talento matemático.

Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.

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PERCEPÇÕES VISUAIS
Oscar D’Ambrosio

No universo da linguística
A dificuldade de real comunicação entre as pessoas constitui um desafio permanente. Reunidas numa mesma sala muitas vezes não se entendem, e as barreiras podem aumentar quando dialogamos entre regiões e países. Imagine quando se trata de conversar com seres de outro planeta.

Esse é o desafio proposto pelo filme A chegada, dirigido por Denis Villeneuve. Após 12 naves extraterrestres pousarem em 12 locais diferentes, percebe-se a necessidade de dialogar com esses seres, sendo chamados dois cientistas para a tarefa: uma linguista e um físico renomados.

A Linguística e a Física são vistas como as duas áreas que mais podem contribuir para o futuro da humanidade. Cabe aos acadêmicos desvendar se os ETs estão em missão de paz ou de guerra. Com esse objetivo, eles desenvolvem estratégias de interação, de decodificação de sinais, de lógica e de computação.

Trata-se de uma rara oportunidade de ver uma linguista em ação no cinema, voltada ao estudo e à prática de diversas formas de linguagem, atividade que pode nos ajudar a conversar melhor com seres de outros planetas, mas também essencial para conhecer melhor os nossos colegas próximos, com os quais, não raro, não conseguimos nos entender.

Mais um homem…
“Mais um homem.” Essa frase dita várias vezes pelo protagonista do filme Hacksaw Ridge (Até o último homem), dirigido por Mel Gib-son, pode servir de alerta. Muitas vezes, no afã de se fazer algo brilhante e inesquecível, esquece-se da importância de dar um passo de cada vez, superando cada etapa gradualmente.

A narrativa acompanha a história verídica de Desmond T. Doss, que se alistou para servir na Segunda Guerra Mundial. Por convicção religiosa, nunca tocou numa arma e, atuando como médico em combate, durante a Batalha de Okinawa, no Japão, conseguiu retirar mais de 70 soldados feridos do campo de batalha.

A cena culminante é justamente no front, quando os americanos, sendo dizimados, batem em retirada. Doss permanece, sozinho, auxiliando os feridos com coragem, determinação e criatividade. Considerar cada homem como único permitiu uma exemplar concentração de força e energia.

Alguns dos caídos em combate foram levados pelo soldado sobre os ombros. Cada combatente carregado não era um fardo, mas um ser único que, salvo, motivava a prosseguir. A cada “Mais um homem” pronunciado, Doss recarregava as “baterias” para carregar um pedaço de si mesmo para auxiliar a humanidade.

 

Com direção de Mel Gibson, o filme Até o último homem (Hacksaw Ridge) conta a história de um médico, do exército norte- -americano, Desmond T. Doss (Abdrew Garfield), que se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. (© Diamond Films / Divulgação)

Com direção de Mel Gibson, o filme Até o último homem (Hacksaw Ridge) conta a história de um médico, do exército norte-americano, Desmond T. Doss (Abdrew Garfield), que se recusa a pegar em uma arma e matar pessoas. (© Diamond Films / Divulgação)

 

Labirinto da mente
Não são poucos os que acreditam que acertar contas com o passado significa fincar melhor os pés no chão para ter uma base sólida para mergulhar de cabeça no futuro. Esse é um dos pressupostos do filme Lion (Lion – Uma Jornada para Casa). O filme de Garth Davis aponta justamente para esse diálogo entre os tempos.

O eixo da narrativa está na história verídica do indiano Saroo Brierley, que, com cinco anos de idade, se perdeu da família numa estação de trem de seu país e foi adotado por uma família australiana. Duas décadas depois, numa festa durante um curso de hotelaria, as lembranças do passado o assombram. Decide então se reconectar ao passado.

O mergulho no passado assegura um futuro mais saudável para o labirinto da mente? Essa é a pergunta do filme Lion – Uma Jornada para Casa

Usando o Google Earth, inicia uma épica aventura por veredas nem sempre claras para localizar a casa onde morava com a família, a estação de trem em que se perdeu e o local em que a mãe trabalhava. Nessa jornada Índia adentro, busca montar um quebra-cabeça para reencontrar a paz perdida.

Uma questão que o filme levanta é se encontrar a família biológica é mesmo essencial para colocar a mente do protagonista em ordem. Duvidar disso não invalida a obra, mas gera indagações. O mergulho no passado assegura um futuro mais saudável para o labirinto da mente? A pergunta é complexa e de respostas variadas e não definitivas.

Sob uma nova luz
A premiação de Moonlight – Sob a Luz do Luar como Melhor Filme no Oscar 2017 dá visibilidade a um filme que corria o risco de ser considerado apenas como a exploração de uma temática vinculada aos negros e homossexuais. A sua construção poética aponta, porém, para valores universais cada vez mais necessários.

Baseada na peça de teatro Moonlight Black Boys Look Blue, de Tarell Alvin McCraney, a película, dirigida por Barry Jenkins, tem três partes. Na primeira, o protagonista Chiron, criança, vive num subúrbio de Miami rodeado e, de certa forma, encarcerado pela pobreza e pela mãe viciada em drogas, dois fatores muito além da cor da pele.

Na segunda parte, Chiron, adolescente, sofre bullying na escola pela condição de homossexual e aquele que se apresenta como seu melhor amigo o trai por mera covardia perante o grupo dominante. A violência aparece como tema essencial numa espécie de beco sem saída de uma sociedade em que a densidade do cotidiano pode inibir a esperança.

Na última parte, Chiron, adulto, ocupa um posto relevante no tráfico, com carro, corpo sarado e dentes de ouro. A carência afetiva, porém, é a mesma de antes. As questões postas em cena estão, dessa maneira, além de rótulos ligados ao ser negro, homossexual ou ambos. Colocam-se na esfera do que a humanidade está fazendo a si mesma.

A fala (en) cantada dos musicais
Sempre que os EUA produzem um musical de grande impacto, alçado a favorito nas principais premiações do cinema mundial, surgem discussões no Brasil sobre o gênero. A principal é sobre a inverossimilhança das músicas e danças que surgem aparentemente do nada para criar atmosferas.

La La Land, dirigido e escrito por Damien Chazelle, provoca discussões semelhantes. Muitos se esquecem de que o falar é um cantar. O ritmo, o acento e a entoação, o universo riquíssimo da prosódia, alertam que cada língua, e até mesmo cada pessoa, tem um “canto” peculiar. É até possível aprender um idioma, mas aprender sua musicalidade é quase impossível.

As pessoas “cantam” o tempo todo sem perceber. Nos musicais, isso é exacerbado. E aí entra a magia. O som ganha corpo na dança, e o ritmo é acrescido dos instrumentos. E as falas ganham uma nova vida. E as palavras e frases se tornam expressões majestosas da raça humana. E emocionam.

O termo lalaland, que significa “lugar fictício onde as pessoas vivem fora de contato com a realidade”, dá o tom de fantasia ao filme. O romantismo ganha espaço em algumas cenas já antológicas e o final, com tom de amargura, mostra que o sucesso é obtido a um duro preço do emocional sacrificado. Tudo isso com muito canto e encanto contagiantes.

 

Cena do musical La La Land – Cantando Estações, com Ryan Gosling no papel de Sebastian, um pianista de jazz, e Emma Stone como Mia, uma atriz em início de carreira. (© Paris Filmes / Divulgação)

Cena do musical La La Land – Cantando Estações, com Ryan Gosling no papel de Sebastian, um pianista de jazz, e Emma Stone como Mia, uma atriz em início de carreira. (© Paris Filmes / Divulgação)

 

A vivência do luto
A morte vive rodeada de tabus. Seja abrupta, por um acidente repentino, ou anunciada, por uma doença terminal, é difícil enfrentá-la com naturalidade. Envolve emoções e sempre nos joga num universo de incertezas. Traz questões emocionais e afetivas e vem acompanhada dos aspectos práticos de procedimentos de velório e enterro.

Dirigido e escrito por Kenneth Lonergan, o filme Manchester by the Sea trata desse universo com objetividade cirúrgica. A morte aparece de várias maneiras como elemento desestruturador. Situações aparentemente estáveis se desequilibram com sua chegada. Seja qual for a circunstância, instaura-se uma ruptura, uma ferida que deixa cicatrizes.

Por negligência, o protagonista causou a morte de seus três filhos, e uma doença de rápida evolução leva seu irmão. Perante esses quatro lutos, ele recebe formalmente o desafio de ser o tutor de seu sobrinho adolescente. Assumir a tarefa significa um quinto luto, pois traz uma transformação radical, que envolve mudança de cidade e de hábitos.

Se a palavra “saudade” é definida por alguns como a “presença de uma ausência”, a morte pode ser considerada como “ausência de uma presença”, um sentimento de falta de algo que já se fez presente. A maneira de lidar com ela vai da dor exacerbada a uma indiferença anestesiada, num espectro infinito de mistérios.

Dores sem limites
Não são poucas as vezes em que se tenta estabelecer limites em relacionamentos seja dentro ou fora da família. Trata-se de um exercício raramente realizado com sucesso, pois os elos entre as pessoas são intrincados e fronteiras imaginadas na teoria raramente se consolidam na prática.

O filme Um limite entre nós (Fences) trata exatamente das cercas que podem existir, queiramos ou não, principalmente entre aquelas pessoas com as quais se tem laços de sangue. Tudo gira em torno de Troy, personagem interpretado por Denzel Washington, também diretor e produtor da obra, originalmente uma peça de teatro.

Aos 53 anos, lida mal com a frustração de ter a sua carreira de jogador de beisebol interrompida pela idade avançada e por questões raciais. Coletor de lixo, enreda-se com um relacionamento fora do casamento, com um filho músico e outro que deseja jogar futebol americano, além de um irmão com problemas mentais após sofrer ferimento de guerra.

Metaforicamente, Troy ergue uma cerca em torno da casa. O pedido da esposa é a imagem de uma dualidade. Ela serve para não deixar entrar, para não permitir que os que estão ali saiam ou para as duas situações? Indica uma série de batalhas internas do protagonista que sucumbe às dores e aos desafios impostos de dar mais do que pode, de fato, oferecer.

 

Cena do filme Um limite entre nós (Fences) com os atores Denzel Washington, no papel de Troy Maxson, e Viola Davis como Rose, sua esposa. (© Paramount Pictures / Divulgação)

Cena do filme Um limite entre nós (Fences) com os atores Denzel Washington, no papel de Troy Maxson, e Viola Davis como Rose, sua esposa. (© Paramount Pictures / Divulgação)

 

O tripé das biografias
Interpretar biografias no cinema é um desafio. Seria um ilusão tentar copiar o real. Por outro lado, ficar aquém dele pode gerar frustração. E existe até o risco de “passar do ponto”, criando uma outra pessoa. O principal argumento está em que a arte não imita a vida, mas a transforma, mas, mesmo levando isso em conta, a questão é delicada e complexa.

Um exemplo é o filme Jackie (2016), dirigido por Pablo Larraín, com Natalie Portman como a personagem-título, Jackie Kennedy. O foco está nos dias seguintes ao assassinato, em 1963, de seu marido, John F. Kennedy, um dos mais famosos presidentes dos EUA.

O ponto de partida é a entrevista concedida a um jornalista da revista Life dias depois da morte e do funeral de John. O filme passa por momentos cruciais como a viagem de avião com o caixão do presidente, a organização do funeral e o célebre tour pela Casa Branca com uma equipe da CBS acompanhando as reformas no local.

Alguns críticos amaram e outros detestaram a interpretação de Natalie. Uma maneira de encará-la é se colocar acima de maniqueismos dentro de um tripé, baseado na autonomia da obra de arte, na possibilidade de maximizar alguns pontos e na escolha de minimizar outros. Do balanço desses três aspectos, surge a Jackie do filme, humana como todos nós.

Eterna, mas não imortal
A recente polêmica entre o presidente dos EUA Donald Trump e a atriz Meryl Streep acabou deixando em segundo plano o filme Florence: Quem é essa Mulher?, de Stephen Frears. A atriz norte-americana em mais um desempenho marcante nos faz refletir sobre os limites entre o sucesso, o fracasso, o amor à arte e o ridículo.

Meryl interpreta Florence Foster Jenkins (1868 – 1944), uma mulher rica e apaixonada pela música. Mesmo sem o mínimo talento para o canto lírico, realizava concertos anuais, sendo o maior deles, aos 76 anos, no templo sagrado do Carnegie Hall. A sua devoção pelo canto e sua falta de senso de ridículo caminhavam lado a lado de uma maneira única.

O filme traz esse universo de uma maneira bem-humorada, mas com momentos comoventes. Florence realmente amava a música e, se isso não era o suficiente para torná-la uma diva, ao menos lhe assegurou um lugar na memória dos artistas de Nova York. Tinha sonhos e gastava muito para realizá-los.

Seu amor pela arte era genuíno, os discos que gravou tiveram renda revertida para instituições de caridade e suas apresentações, lotadas, levavam a plateia ao riso. Quem foi, afinal, essa mulher? Talvez um misto único de ingenuidade e vaidade que, se não se imortalizou pelo talento, seguramente está eternizada no cinema pela talentosa Meryl.

Educação Sem Escola
Educação é um tema essencial. Quem concorda com essa frase precisa assistir ao filme Capitão Fantástico. Nele, Ben e seus seis filhos vivem uma prática cotidiana de exercícios físicos e atividades intelectuais distantes da escola tradicional. A morte da mãe, porém, os leva a retornarem para a chamada civilização e os conflitos são inevitáveis.

No Brasil, o ensino domiciliar, como substituto do ensino escolar, não é expressamente proibido nem permitido ou regulado por qualquer norma. O tema é relativamente novo no Brasil, mas há alternativas consagradas no exterior.

A mais conhecida é a homeschooling, ensino doméstico, gerido e validado por alguns Estados dos EUA em que a criança precisa comprovar periodicamente os conhecimentos adquiridos. Os defensores da ideia lembram que a célebre antropóloga Margaret Mead, por exemplo, estudou em casa.

O filme aponta vantagens e desvantagens desse tipo de educação e mostra uma variável fundamental: como ela é feita. Há ainda experiências de modelos mistos, entre o tradicional e o domiciliar, a discutir. Se parte dessas variantes for colocada em pauta, assistir ao filme já terá valido a pena.

A força da convicção
Há milhares de livros e milhões de textos na Internet sobre liderança, mas poucos trazem lições tão preciosas como o filme Sully, de Clint Eastwood, com Tom Hanks no papel do Capitão Chesley “Sully” Sullenberger, que conseguiu pousar um avião em pane no Rio Hudson, em 2009, salvando todos os passageiros.

A ação, considerada inicialmente heroica, foi motivo de rigorosa investigação por desconfiança de ter sido imprudente e de ter colocado vidas em jogo sem necessidade. Para comprovar que sua decisão foi correta, Sully teve que manter o sangue frio e provar seus argumentos.

Em pouquíssimo tempo, após ter as turbinas atingidas por uma revoada de pássaros, foi tomada a decisão que se mostrou correta. Para isso, foi necessário: focar totalmente no problema, assumir a responsabilidade de todo o processo decisório, avaliar prós e contras e manter a capacidade de arriscar, mas com responsabilidade.

A convicção de estar na direção certa é que fez a diferença. Isso vale para o empresário, o artista, o professor ou o estudante. Para responder rapidamente a um problema, é necessário conjugar experiência e ousadia. Torna-se assim possível ter a frieza de decidir passos a serem dados, seja no longo, médio, curto ou, como no presente caso, curtíssimo prazo.

 

George Clooney (primeiro plano)interpretando o astro, Baird Whitlock, da superprodução  Hail, Caesar! (© Universal Pictures / Divulgação)

George Clooney (primeiro plano)interpretando o astro, Baird Whitlock, da superprodução Hail, Caesar! (© Universal Pictures / Divulgação)

 

Vaidades cinematográficas
“Não há graus de vaidade, apenas graus de habilidade em disfarçá-la.” A frase atribuída a Mark Twain poderia estar nos letreiros originais do filme Ave, César!. Dirigido pelos irmãos Joel e Ethan Coen, conta as atribulações de um funcionário da Hollywood dos anos 1950 para lidar com as suas superestrelas.

Os personagens são muitos. O astro sequestrado, a estrela envolvida em escândalos, o galã vaidoso, as jornalistas de fofoca, o ator de faroeste que tenta interpretar papéis mais sérios e o diretor respeitado são alguns deles, todos imersos em uma narrativa que destaca a anormalidade da normalidade num mundo de egos exacerbados.

A sedução do filme está em mostrar como as celebridades, reais e pretensas, se comportam num mundo em que a realidade e a ilusão se misturam. Cada personagem, dentro da situação colocada no roteiro, manifesta uma dificuldade, mais ou menos consciente em cada caso, para diferenciar o que representam na tela e na vida “real”.

O tema da vaidade no cinema surge renovado talvez, porque, nos anos 2010, com recursos como o Facebook, entre muitos outros, o que acontece e o que mostramos que ocorre se misturam a tal ponto que a mescla entre o que é, o que pode ser e o que poderia ser se dilui a pontos inimagináveis. Salve, Ave, César!, por trazer essa reflexão!

 

Oscar D’Ambrosio, doutor em Educação, Arte e História da Cultura e mestre em Artes Visuais, atua na Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp.

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