Projeto pretende mapear os anfíbios do Estado de São Paulo

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Objetivo é subsidiar processos de tomadas de decisão em projetos de conservação da biodiversidade e planejamento territorial ambiental

Os anfíbios são os vertebrados mais ameaçados no planeta, sendo as mudanças do uso e ocupação do solo a principal ameaça a este grupo. Neste sentido, frequentemente pesquisas relacionadas a este grupo têm sido solicitadas em termos de referências para diagnósticos no âmbito de licenciamento ambiental e plano de manejo de Unidades de Conservação. No entanto, esses estudos frequentemente envolvem um esforço amostral em campo muitas vezes insuficiente para detectar a real riqueza de anfíbios, principalmente no bioma da Mata Atlântica paulista, um hotspot mundial de biodiversidade.

Neste contexto, desenvolver ferramentas que possibilitem estimar a potencial riqueza de anfíbios através de dados de qualidade, acumulados nas bases de dados, pode ser útil para gerar diagnósticos mais precisos que podem ser utilizados como subsídio na caracterização da fauna em áreas de influência de empreendimentos, auxiliar no planejamento do zoneamento de Unidades de Conservação e no zoneamento territorial ambiental. Os anfíbios são excelentes organismos-modelo para estudos de biogeografia. São ecologicamente especializados, têm baixa capacidade de dispersão e são sensíveis a mudanças ambientais, o que torna interessante a modelagem preditiva de sua distribuição geográfica. Esta abordagem tem potencial de gerar economia de recursos financeiros, já que muitas vezes inventários de campo podem ser onerosos, sendo possível otimizar o direcionamento dos recursos em áreas com lacunas de conhecimento, ou até mesmo em ações de mitigação, como restauração da vegetação nativa e monitoramento de populações silvestres a longo prazo.

 

Sapo-ferreiro (Hypsiboas faber). Espécie com ampla ocorrência no Estado de São Paulo.

Sapo-ferreiro (Hypsiboas faber). Espécie com ampla ocorrência no Estado de São Paulo.

 

O projeto
Após o advento do Programa Biota-FAPESP, que apoiou projetos de prospecção da biodiversidade no Estado de São Paulo, bem como a sistematização desta informação em um banco de dados de amplo acesso (http://www.biota.org.br/), houve uma intensificação do conhecimento da biodiversidade paulista. O grupo dos anfíbios experimentou um incremento da ordem de 31% em relação ao número de espécies registradas para o Estado em 1998. Além disso, o número de espécies registradas representa aproximadamente 27% da riqueza de espécies do país, demonstrando também que o Estado é a região brasileira onde os anfíbios foram mais estudados (ROSSA-FERES et al., 2011).

A relevância destas informações motivou o ecólogo João Gabriel Ribeiro Giovanelli a desenvolver a tese de doutorado “Modelagem preditiva dos anfíbios do Estado de São Paulo: protocolos e subsídios para estudos aplicados em escala geográfica regional” no programa de pós-graduação em Ciências Biológicas – Zoologia no Instituto de Biociências da Unesp – Rio Claro, com orientação do Professor Dr. Célio F. B. Haddad, que é também curador da Coleção CFBH, uma das coleções de anfíbios mais representativas do Estado de São Paulo.

Este projeto tem como objetivo principal desenvolver métodos de modelagem de distribuição geográfica de anfíbios em escala regional, visando gerar informações detalhadas sobre a distribuição da comunidade de anfíbios no Estado de São Paulo, subsidiando processos de tomadas de decisão em projetos de conservação da biodiversidade e planejamento territorial ambiental.

 

Mapa de ocorrência  potencial do sapinho- -pitanga (Brachycephalus pitanga) no alto da Serra do Mar paulista.

Mapa de ocorrência potencial do sapinho-pitanga (Brachycephalus pitanga) no alto da Serra do Mar paulista.

Justificativa
Os métodos de modelagem de distribuição geográfica de espécies, devido à sua capacidade de associar matematicamente a presença de uma espécie com um conjunto de variáveis ambientais, constituíram-se recentemente como uma importante ferramenta no entendimento de padrões de distribuição geográfica de organismos.

Na última década houve um grande desenvolvimento na modelagem preditiva da distribuição geográfica de espécies. Existem inúmeras bases de dados biológicos e ferramentas de livre acesso que possibilitaram a criação de mapas preditivos. No entanto, a maioria das linhas de pesquisa promoveu o desenvolvimento de modelos de distribuição de espécies em escalas amplas, dificultando a replicação destas metodologias em projetos de tomadas de decisão na área de conservação da biodiversidade. Projetos desta natureza geralmente trabalham em escalas geográficas regionais de alta resolução espacial.

Os pesquisadores envolvidos nesta tarefa possuem vasta experiência nesta questão. Na década de 2000, juntamente com o Professor Dr. João Alexandrino, atualmente professor na Unifesp Diadema, estes pesquisadores desenvolveram diversos estudos sobre modelagem de anfíbios em contextos de mudanças climáticas, descobrimento de espécies raras e invasão biológica.

No entanto, agora o desafio é outro. Desenvolver métodos para modelar em escala regional, utilizando principalmente variáveis ambientais derivadas de novos satélites de alta resolução espacial. Esta abordagem pode auxiliar na conservação de espécies, como também propiciar a criação de uma ferramenta que poderá ser útil no delineamento de estratégias de planejamento ambientais até mesmo na escala dos municípios.

Projeto agrupou as espécies de acordo com características semelhantes de ocupação do habitat e sítios de reprodução

Resultados já alcançados
Até o ano de 2011 eram conhecidas para o Estado de São Paulo 236 espécies de anfíbios, das quais 230 são anuros (sapos, rãs e pererecas) e seis são Gymnophiona (cecílias ou cobras-cegas) (ROSSA-FERES et al., 2011). A compilação de dados do presente projeto feita em diversas coleções biológicas e publicações de descrições taxonômicas recentes (e.g. BAÊTA et al., 2016) mostra que este número já ultrapassa mais de 250 espécies.

Uma outra etapa já concluída do projeto foi agrupar as espécies de acordo com características semelhantes de ocupação do habitat e sítios de reprodução, correlacionando esta informação com o mapeamento de uso e ocupação do solo e cobertura vegetal oficial do Estado de São Paulo. Esta abordagem resultou em agrupamentos de espécies com distribuição geográfica distinta, que vão desde espécies de habitats generalistas até aquelas que ocorrem somente em vegetação em alto estado de conservação (por exemplo, floresta atlântica do alto da Serra do Mar). Além disso, os mapas gerados permitem investigar a ocorrência preditiva de comunidades de anfíbios em pequenos fragmentos de vegetação (0,1 hectare), principalmente no bioma da Mata Atlântica, que atualmente tem sua vegetação remanescente praticamente fragmentada. Essa etapa do trabalho foi apresentada em formato de comunicação oral no VIII Congresso Mundial de Herpetologia, realizado em agosto de 2016 na China.

 

Desova arborícola depositada pela pererequinha-do- -brejo (Dendropsophus berthalutzae). Após a eclosão dos ovos, girinos caem em poças d’água onde se desenvolvem até a fase adulta.

Desova arborícola depositada pela pererequinha-do-brejo (Dendropsophus berthalutzae). Após a eclosão dos ovos, girinos caem em poças d’água onde se desenvolvem até a fase adulta.

 

Outro resultado significativo alcançado foi a modelagem do potencial de invasão de Eleutherodactylus johnstonei no Brasil. Esta espécie nativa das Antilhas foi recentemente introduzida no município de São Paulo e vem tirando o sono de muita gente devido ao seu canto estridente emitido durante a noite próximo a algumas residências, principalmente no bairro do Brooklin. Novos métodos de modelagem gerados a partir de camadas ambientais de alta resolução espacial mostram um grande potencial de invasão da espécie no Estado de São Paulo, tendo potencial de subsidiar diversas estratégias de contenção e manejo desta espécie exótica invasora.

No geral, o projeto terá duração de 4 anos e seu término está previsto para final do ano de 2019. Para mais detalhes do projeto acesse <https://anfibiosnomapa.wordpress.com/>.

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REFERÊNCIAS
BAÊTA, D.; GIASSON, L. O. M.; POMBAL, J. P.; HADDAD, C. F. B. Review of the Rare Genus Phrynomedusa Miranda-Ribeiro, 1923 (Anura: Phyllomedusidae) With Description of a New Species. Herpetological Monographs, v. 30, p. 49-78, 2016.

ROSSA-FERES, D.; SAWAYA, R.; FAIVOVICH, J.; GIOVANELLI, J. G. R.; BRASILEIRO, C. A.; SCHIESARI, L.; ALEXANDRINO, J. M. B.; HADDAD, C. F. B. Anfíbios do estado de São Paulo, Brasil: conhecimento atual e perspectivas. Biota Neotropica, v. 11, 2011.

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FOTO: Phrynomedusa dryade é uma espécie recém-descrita para o bioma da Mata Atlântica no Estado de São Paulo (e.g. BAÊTA et al., 2016).

Célio F. B. Haddad possui graduação em Ciências Biológicas pela Unicamp (1982), mestrado (1987) e doutorado (1991) em Ecologia também pela Unicamp. Atualmente é professor titular de Vertebrados do Departamento de Zoologia da Unesp Rio Claro. Ganhou dois Prêmios Jabuti de Literatura, o primeiro em 1993, pela participação no livro História Natural da Serra do Japi; e o segundo em 2014, pela autoria do livro Guia dos Anfíbios da Mata Atlântica: Diversidade e Biologia. É membro titular da Academia de Ciências do Estado de São Paulo – ACIESP.

João G. R. Giovanelli é ecólogo formado pela Unesp Rio Claro (2005) e mestre em Ciências Biológicas – Zoologia (2009) pela mesma instituição. Foi consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD e da Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit – GIZ em projetos de criação de Unidades de Conservação e atual lista brasileira dos anfíbios ameaçados de extinção. E-mail: <jgiovanelli@gmail.com>.

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