Centro de Documentação e Memória completa 30 anos

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Centro acumula história e memória da esquerda brasileira

Entrevista com Anna Maria Martinez Corrêa

Neste ano de 2017, o Cedem (Centro de Documentação e Memória), da Unesp, completa 30 anos de criação. A trajetória do Centro é marcada pela persistência e abnegação de três historiadores da Universidade, liderados por Anna Maria Martinez Corrêa, atualmente docente aposentada da Faculdade de Ciências e Letras, Câmpus de Assis. Em reunião, na qual estavam presentes as professoras Leila Marrach Basto de Albuquerque, do Câmpus de Rio Claro, Teresa Malatian, do Câmpus de Franca, e a assistente Lígia de Almeida, ocorrida em dezembro de 2016, Anna Maria lembra o percurso do Cedem, até tornar-se um órgão conhecido e respeitado por sua atuação no campo da preservação de acervos históricos. A íntegra desta entrevista é parte do “Projeto Memória da Universidade”, do qual o Cedem se originou.

Leila Como se deu a idealização e o movimento para a criação do Cedem?
Professora Anna Maria A criação do Cedem está ligada a um grupo de historiadores preocupados com a pesquisa histórica fundamentada no trabalho com documentos. Aconteceu mais ou menos por volta de fins dos anos 1970. Em Assis, desde 1973 estávamos desenvolvendo um projeto de criação de um centro de documentação local. Inicialmente reunimos documentos dos professores que faziam as suas pesquisas tendo em vista a complementação de sua carreira acadêmica. Fomos reunindo microfilmes e cópias de documentos para que outras pessoas também pudessem consultá-los. A partir daí, começamos a pensar numa ampliação desse sistema, reunindo várias outras Unidades interessadas nos estudos de História. No começo dos anos 1980, a Universidade começava a adquirir um formato diferenciado com a formação dos primeiros cursos de pós-graduação, mas principalmente em função das novas perspectivas daquele momento em razão das campanhas pela democratização, que provocaram uma aproximação maior entre os pesquisadores de várias universidades. Esses fatos geraram um efeito para a pesquisa histórica, pois passou a haver um grande interesse pelo conhecimento das razões que haviam nos levado a viver os problemas daquele momento. Daí uma necessidade de busca dessas razões, dos registros delas, provocando uma valorização da utilização de documentos. Foi no âmbito desse movimento que o governador [Franco] Montoro assinou um decreto criando o Sistema Estadual de Arquivos, o que impunha a necessidade de organização da documentação pública. Essa iniciativa provocou o interesse de fazermos o mesmo dentro da Universidade. Começou, então, uma agitação pela organização de acervos documentais. Nosso reitor apoiou a iniciativa, criando um grupo de trabalho para fazer um estudo sobre como valorizar a documentação produzida e recebida pela Unesp. Foi a Portaria Unesp/17, de 25 de fevereiro de 1987.

 

Anna Maria Martinez Corrêa (à esq.), Teresa Malatian e Leila Marrach Basto de Albuquerque (© Lígia de Almeida)

Anna Maria Martinez Corrêa (à esq.), Teresa Malatian e Leila Marrach Basto de Albuquerque (© Lígia de Almeida)

 

A origem do Cedem está ligada à atuação desse grupo de trabalho. Por isso é que eu digo sempre que a criação do Cedem resultou de uma ação coletiva. Não fui eu que o criei. Foi um trabalho elaborado por profissionais interessados na organização e preservação da documentação da Universidade, ou seja, da memória da Universidade registrada em sua documentação. Eu fiz parte desse grupo, juntamente com Teresa Malatian, minha companheira de sempre, o professor John Monteiro, o professor José Ênio Casalecchi e o professor Odair Sass. Nessa ocasião, o IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, já desenvolvia um curso de especialização em documentação, que nos inspirava e nos orientava e de onde saíram os primeiros técnicos que vieram a trabalhar no Cedem. A Unicamp foi a primeira universidade a criar uma central de documentação, o Arquivo Central. Era isso que a gente pretendia.

Iniciativa de criação do Cedem, em 1987, foi de um grupo de historiadores da Unesp

De início, a proposta era muito marcada pela nossa formação de historiadores. Faltava ainda uma certa orientação técnica. Recorremos, então, à professora Heloísa Bellotto, que havia sido nossa colega em Assis, bastante envolvida com essa questão de documentação tendo se especializado nessa área. Tivemos também a colaboração dos professores José Sebastião Witter e Daíse Apparecida de Oliveira, que também atuavam na área de arquivos. Começamos a montar um primeiro núcleo de trabalho, dividido em três projetos: “Memória da Universidade”, “História Regional” e “História de São Paulo”. Eu fiquei com a coordenação do “Memória da Universidade”, a Teresa com a “Memória Regional” e o John com a “História de São Paulo”. Com o tempo fomos percebendo a complexidade de trabalhar em três projetos. Fomos reduzindo até centralizarmos tudo no “Memória da Universidade”. A Reitoria nos cedeu espaço e pessoal. Foi quando tivemos a oportunidade de receber nosso primeiro núcleo de arquivistas, formados pelo curso de especialização do IEB: Jacy Barletta, Maria Marta Mesquita, Solange de Souza, Álvaro Brandão dos Santos e Luis Zimbarg. Posteriormente pudemos contar também com uma secretária, Rosemeire Francelin.
No desenvolvimento desses trabalhos iniciais pudemos contar com o apoio do professor Marco Aurélio Nogueira, então um dos diretores da Fundap (Fundação do Desenvolvimento Administrativo), que já havia participado de projetos semelhantes para atender ao governador Montoro. Na Fundap, o professor Marco Aurélio organizou um curso, montado para atender à proposta de organização da documentação da Unesp, sob a direção da professora Rose Inojosa, que havia se especializado nessa área.

O curso nos proporcionou a possibilidade de execução do projeto inicial. Para isso, foram organizados comitês de funcionários, convocados por meio de portarias do reitor para aprender e aplicar a técnica até a criação de um sistema de arquivos para a Unesp. Para isso foi preciso ter conhecimento do nosso objeto – um sistema de arquivos para a Universidade. E que Universidade era essa? Fomos a campo para conhecê-la. Aí vieram surpresas. Quando falávamos em Universidade, pensávamos em uma unidade. Mas encontramos objetos super-heterogêneos, produtos da própria história. A Unesp surgiu dos Institutos Isolados. Cada câmpus tinha a sua formação e maneira de tratar a documentação. Como estávamos pretendendo apresentar um projeto para aquela coletividade, então a nossa obrigação primeira era conhecê-la. E era uma coisa difícil, porque também não queríamos igualar todo mundo, mas conhecer as individualidades para criar um projeto comum. Saímos a pesquisar em cada Unidade. Como a documentação era produzida e trabalhada.

Quando falávamos em Universidade, pensávamos em uma unidade. Mas encontramos objetos super-heterogêneos, produtos da própria história

Leila Havia seções em que cada um cuidava do seu pedaço, razão da duplicação de guarda.
Professora Anna Maria Havia também questões burocráticas terríveis. Vinha aquela determinação “você não pode destruir isto”. A mesma informação era duplicada em vários departamentos. Então fomos descobrindo as atividades, o que era guardado e o que era descartado. Esse trabalho foi feito na Universidade toda. Foi um trabalho coletivo e o resultado final ficou pronto em outubro de 1989. Houve uma apresentação em sessão do Conselho Universitário. Na época o reitor era o professor Paulo Milton Barbosa Landin. Fomos cheios de esperança de criar o Sistema de Arquivos da Unesp. A professora Rose Inojosa fez uma exposição que achamos brilhante. Estávamos orgulhosos porque era um trabalho bem-feito muito bem documentado. Mas não foi aprovado. “Para que isso? Era uma coisa desnecessária.” Foi, assim, um balde de água fria, uma decepção enorme. Não aceitaram nosso projeto, acharam que não havia razão de ser. E, então, o que fazer agora? Primeira coisa foi pensar a razão da derrota. Achamos que os conselheiros não haviam entendido, que não se haviam dado conta da importância do projeto. Só para lembrar, hoje, a Reitoria tem um setor que cuida desse tema. Não só, mas a Unesp tem também uma Faculdade especializada nos estudos sobre a documentação, uma das poucas no país. Se os conselheiros não haviam entendido, então teríamos de achar um jeito de explicar. Na ocasião estava aberta uma chamada para “Projetos especiais”. Eu pensei, vamos entrar por aí, quem sabe assim sensibilizamos alguém? O projeto de sistema de arquivos da Unesp foi reelaborado e apresentado. Ficou como projeto especial, ao qual demos o nome de Cedem. Continuamos a fazer investidas pelo interior para conhecer a documentação. Naquela altura, já podíamos contar com outros colaboradores, na própria Unesp, como a professora Célia Camargo, do Câmpus de Assis. Ela dispunha de uma vasta experiência na área, adquirida junto ao CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da FGV) e havia sido responsável pelo acervo da Eletropaulo. Podíamos dizer, assim, que havíamos conseguido uma primeira equipe técnica, que deu suporte ao Cedem.

 

Anna Maria Martinez Corrêa e Teresa Malatian (© Lígia de Almeida)

Anna Maria Martinez Corrêa e Teresa Malatian (© Lígia de Almeida)

 

Teresa Malatian Poderia falar sobre a nossa peregrinação nos espaços, onde era o nosso local de trabalho aqui em São Paulo?
Professora Anna Maria Começamos na Avenida Rio Branco, local da antiga Reitoria, onde é a Fundunesp (Fundação para o Desenvolvimento da Unesp) atualmente. Tínhamos uma vizinhança interessante, o pessoal da Editora (Fundação Editora Unesp). Ficamos uma boa temporada lá. Quando a Reitoria, que funcionava na Praça da Sé, foi transferida para a Alameda Santos, o prédio ficou vazio. Era a gestão do professor Arthur Roquete de Macedo e ele nos convidou para ocupar umas dependências do prédio da Sé. Antes, porém, fomos para um edifício na rua Senador Paulo Egydio, onde havia uma boa sala de reunião, na qual fazíamos as nossas discussões. Na Paulo Egydio tivemos a oportunidade de conviver com o setor de informática da Reitoria e essa convivência nos proporcionou a possibilidade de desfrutar de um curso ministrado por funcionários daquele setor. Pudemos receber, assim, os primeiros ensinamentos da utilização da informática que, para alguns de nós, como para mim, por exemplo, era algo totalmente novo. Ainda nesse local dividíamos nosso espaço com a Adunesp (Associação dos Docentes da Unesp), com cuja diretoria podíamos trocar ideias a respeito da Universidade. Aí ganhamos mais um computador com impressora, o que foi a maior novidade. Começamos a verificar que aquele trabalho que desenvolvíamos – avaliação de documentos, documentação produzida, documentação recebida, qual deveria ser guardada ou descartada – era uma coisa muito árida e falava pouco da Universidade. Onde estava a produção científica? A resposta que sempre nos davam era que a produção científica pertencia à biblioteca. Era difícil termos conhecimento da vida acadêmica. Por outro lado, os documentos oficiais da Universidade eram excessivamente formais, burocráticos e pouco informativos quanto ao desenvolvimento da vida acadêmica e suas relações. Surgiu, então, a ideia da elaboração de um projeto paralelo, de história oral, onde pudéssemos ter conhecimento sobre a criação e desenvolvimento da produção científica.

Teresa Malatian Como foi o desenvolvimento desse projeto de história oral?
Professora Anna Maria Antes de falar dele, gostaria de lembrar que o Cedem ficava na dependência do vice-reitor. Não tínhamos um orçamento próprio e cada iniciativa representava uma peregrinação dentro da Reitoria. Ficávamos horas esperando para sermos atendidas e nem sempre sermos compreendidas. Então nós desenvolvemos uma outra tática, além da pesquisa, também a busca de recursos. O nosso grande apoio sempre foi a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Nossas solicitações foram sempre atendidas. Graças à Fapesp pudemos equipar o Cedem com os gravadores, com os armários para a guarda de documentação, ter verba para os nossos deslocamentos, para a contratação de serviços, para a contratação de estagiários e também para a formação de uma pequena biblioteca de orientação metodológica. Sobre o projeto de história oral, nos primeiros trabalhos foi muito importante o esquema produzido pelo CPDOC. Eles publicaram um livro com uma orientação técnica a respeito de história oral. Procuramos nos preparar bem antes de lançar esse projeto. Levantamos uma ampla informação bibliográfica sobre a metodologia de história oral. O interessante foi que, tanto para esse trabalho de história oral, como no anterior, de contato com os documentos, a equipe do Cedem foi criando uma metodologia própria. Por isso é que eu insisto sempre nesse aspecto coletivo do Cedem. Não era só uma pessoa que orientava e realizava uma determinada metodologia, mas as coisas iam sendo descobertas aos poucos.

 

Anna Maria Martinez Corrêa (© Lígia de Almeida)

Anna Maria Martinez Corrêa (© Lígia de Almeida)

 

Leila Você podia contar como foi a expansão e a diversificação das linhas de atuação do Cedem?
Professora Anna Maria Antes da diversificação houve uma concentração. Nossa pretensão era muito grande. Ficamos apenas com o “Projeto Memória da Universidade”. Com o tempo criamos a parte de eventos, porque ao fazer esse nosso trabalho de procura da produção científica, verificamos que era comum o docente apresentar sua tese para formação da carreira e ela nem sempre ser divulgada. Era uma produção que surgia na Unidade e ficava escondida. Nós imaginamos que seria interessante desenvolver um pouco mais esse trabalho, permitindo um diálogo dessa produção que ultrapassasse os limites de uma banca examinadora. Propusemos o projeto “Teses em Debate”, pelo qual a tese poderia ser colocada publicamente para discussão, para que o autor tivesse uma avaliação dos resultados do seu trabalho. A partir de 1997/1998 o Cedem passou a receber acervos sobre movimentos sociais. Desde o início de nossos trabalhos havíamos considerado que o Cedem, como centro de documentação, não seria receptor de acervos. No entanto, a oportunidade que nos foi apresentada, com a oferta do conjunto de documentos do ASMOB – Archivio Storico el Movimento Operaio Brasiliano –, foi muito tentadora e fomos incapazes de resistir. Recebemos o do ASMOB, cuja incorporação veio a ser um atrativo para que outros aparecessem, e assim passamos a dedicar parte de nosso trabalho aos cuidados com mais essas fontes com as quais formamos um grande acervo sobre as esquerdas no Brasil.

Os  documentos oficiais da Universidade eram excessivamente formais. Surgiu, então, a ideia da elaboração de um projeto paralelo, de história oral

Leila Fala um pouquinho sobre a institucionalização do Cedem.
Professora Anna Maria É uma questão muito dolorida também. A institucionalização seria o reconhecimento da nossa existência pela própria Universidade. O reconhecimento como uma Unidade que tem uma certa vivência e um estilo de trabalho. Foi uma das nossas batalhas, uma das coisas mais difíceis que enfrentamos desde os primeiros tempos. A duras penas conseguimos uma primeira institucionalização, em 2003 (Resolução Unesp-96, de 10-9-2003), mesmo assim, pouco expressiva. Apesar de a Universidade dizer que nos reconhecia, não nos dava um status correto. Lutamos até hoje por esse reconhecimento.

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