Turismo sustentável: uma equação difícil de ser fechada

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A Organização das Nações Unidas declarou que 2017 é o Ano Internacional do Turismo Sustentável, mas o que isso significa? Por quais motivos essa temática é importante? O que é Turismo Sustentável?

O planeta tem aproximadamente sete bilhões de pessoas e dessas cerca de um bilhão realiza viagens. Porém, o turismo não se encontra apenas nas viagens, a profissão de turismólogo engloba também o setor de eventos, meios de hospedagem, agenciamento de viagens, alimentos e bebidas, transporte aéreo, marítimo, ferroviário e rodoviário, ecoturismo, mercadologia e estratégias públicas e privadas, além das áreas de preservação de espaços naturais tais como parques, reservas ecológicas, patrimônio material e imaterial entre outras possibilidades.

Ao se entender que o turista é aquele que se movimenta para além de seu espaço de origem e consome deslocamento, alimentação, bebidas, estadia, cultura, lazer, infraestrutura básica (rodovias, segurança, saúde, comunicação etc.), dança, música, história, observamos que as viagens compõem apenas uma parte do que vem a ser o turismo sem considerar o verdadeiro tamanho do exército de pessoas e organizações que trabalham no setor ao redor do mundo e seu impacto.

É preciso observar que não existe atividade turística sem impacto nos locais que acomodam algum tipo de atrativo, seja uma festa regional, um passeio a museu, a locação de uma chalana, a compra de peças artesanais, uma caminhada, cavalgada, pescaria, desfrute em um cruzeiro ou na beira de uma bela praia. O fato é que onde existe o turismo os espaços são impactados de modo positivo ou negativo pela atividade.

Os impactos positivos mais facilmente observáveis – que não constituem regra – são: geração de emprego e renda, em alguns casos preservação dos espaços, das tradições e da história, melhoria da qualidade de vida dos autóctones (originários de uma localidade), programas sociais, ambientais e/ou financeiros entre outros.

Os impactos negativos, mais visíveis, são: exploração de mão de obra, impactos ambientais negativos, degradação dos espaços, politicagem, degradação social e/ou econômica, entre outros.

Por sua vez, sustentabilidade tem sido um tema discutido de modo recorrente nas últimas décadas e significa de modo simples o equacionamento de uma oferta que permita o equilíbrio entre o ambiente natural, os aspectos sociais e a necessidade econômica, ou seja, uma oferta que não agrida o meio ambiente, não gere exploração ou degradação de pessoas e que seja economicamente viável.

Pensar e agir sobre espaços e situações e o Turismo é uma janela aberta de possibilidades de transformação de ideias, processos, lugares e sobretudo de pessoas

Esse é um conceito puro e livre das situações impactantes geradas pelos mais diversos grupos de interesses, como por exemplo: as pessoas querem receber por seus serviços, os empresários querem lucro pelo investimento e risco que correm, o governo quer seus impostos, o turista quer a melhor experiência que puder ter pelo tempo e dinheiro que está despendendo, o peixe e o macaquinho querem continuar vivos depois do contato com o humano, ou seja, todos querem ganhar sempre. Deu para perceber que essa equação é muito difícil de ser fechada com todos os envolvidos ganhando.

Desse modo, ao se pensar em turismo sustentável, está-se pregando que a atividade que movimenta e impacta positivamente nas economias mundiais precisa ponderar todos os elementos que envolvem uma oferta. Perguntas como:
1) De que modo se tratará os resíduos gasosos, sólidos e líquidos de um empreendimento?;
2) De que modo o ambiente (fauna, flora, espaços e componentes) pode ser menos impactado ou de que forma mitigar esses impactos?;
3) Como melhorar a qualidade de vida dos colaboradores da empresa e também da população?; e
4) Como obter lucro sem explorar pessoas e meio ambiente?

Essas e tantas outras perguntas fazem emergir o entendimento dos motivos que levaram a ONU a declarar 2017 como o Ano do Turismo Sustentável. A massa de pessoas se deslocando e consumindo gera impactos de ordem gigantesca em todos os sentidos.

Vamos imaginar a quantidade de garrafas de água que um bilhão de pessoas consomem. Imagine a quantidade de papel gerada por bilhetes ou ingressos para entrada em atrativos como parques, museus, mostras, meios de transporte e tantos outros. Todos os números são grandiosos, mas o modo de acomodar esses impactos ainda é tratado, em grande parte dos casos, como antigamente: o resíduo que eu gero deixa de ser meu problema quando eu o coloco em uma lata de lixo.

Ter consciência social, ambiental e econômica sentado em uma confortável poltrona ou sofá ou mesmo compartilhando algo pelas redes sociais não nos torna cidadãos preparados para a nova era. Talvez pequenas ações de preservação e conservação no nosso microespaço sejam um primeiro passo.

Como modo de ilustrar, recordo-me de uma lição que presenciei quando criança. Na praia, um senhor fumava e tomava uma lata de refrigerante na areia. Ao terminar seu refrigerante ele colocou o resto do cigarro dentro da lata e atirou-a no mar. Todas as pessoas ficaram olhando imóveis aquele ato de falta de educação, de consciência e por que não dizer de vergonha na cara. Um salva-vidas correu para o mar e recuperou a lata e a entregou ao senhor dizendo: isso lhe pertence. Tenha o capricho de jogar em uma lixeira.

Essa foi, para mim, uma das maiores lições quando o tema é sustentabilidade e responsabilidade individual.

Sobretudo, é preciso pensar e agir sobre espaços e situações e o Turismo é uma janela aberta de possibilidades de transformação de ideias, processos, lugares e sobretudo de pessoas.

Para além das palavras, o momento é de planejar e agir.

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Fábio Luciano Violin é doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional. Coordenador e professor do curso de Turismo da Unesp – Câmpus de Rosana. E-mail para contato: <violin@rosana.unesp.br>.

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