As letras revivem: Rever Augusto de Campos

Exposição reconhece vivificante potencialidade de as letras fazerem arte em desenho, espaçamento, textura, cinesia e cor

Quando aprendemos a ler, geralmente na primeira infância, era muito comum tomarmos as letras como desenhos. As cartilhas traziam, e trazem, letrinhas de mãos dadas. Escrever é falar em silêncio, antecipar o que se vai dizer ou registrar o que se disse. Um modo de fixar uma fala, um pensamento, para sempre. E tal é o prestígio da escrita que pensamos que falamos errado quando erramos na ortografia… Mas a escrita tem seus detratores. “A letra mata, o espírito vivifica”, disse São Paulo (Cor, II, 3.6) em uma reação à imutabilidade da letra, algo que também pode ser evocado por quem não acredita na força do elemento visual em poesia ou por quem perdeu aquele primeiro encanto de quando os escritos falavam.

A exposição REVER Augusto de Campos, que está aberta à visitação de 9 de março a 25 de junho no SESC-Araraquara, é capaz de fazer-nos recobrar aquela primeira experiência de letramento, assim como reconhecer a vivificante potencialidade das letras fazerem arte em desenho, espaçamento, textura, cinesia e cor.

O nome da exposição é um poema: as duas últimas letras invertidas como num espelho, tendo o V qual fosse vidro a vincular vida e imagem, presente, passado e futuro. A forma do escrito projeta o movimento circular subjacente ao sentido do que é dito no modo de grafá-lo. Como este que dá título à mostra, os poemas visuais estão em cartaz. São objetos palpáveis como esculturas ou se assistem em breves videoclipes. Trazem, em sua bem calculada exposição, um retrospecto da carreira literária de Augusto de Campos, maior poeta brasileiro vivo.

Tais poemas, em geral, instigam um certo grau de decifração. Portam signos reconhecíveis como letras, mas dispostos de uma tal forma, que desnorteiam à primeira vista o curioso visitante, provocando-o a exercitar seu olhar em busca de um atalho para o reconhecimento daquilo que vê escrito em múltiplos contornos e direções. A arte de Augusto de Campos é delicada. A exposição traz também alguns rascunhos de poemas feitos com canetinha, giz de cera e lápis de cor em papéis quadriculados como aqueles que se usam até hoje nas primeiras letras. Mas o poeta se serve dessa quadratura matematicamente para precisar a proporção do que grafa ou grafita, para potencializar o dito através da cor, enfim, para levar-nos além da palavra.

REVER, que conta com a sensível curadoria de Daniel Rangel, é um passeio para os sentidos e uma imersão em uma das mais originais manifestações artísticas do século XX que é o Concretismo brasileiro. REVER faz-nos maravilhados como da primeira vez que discernimos letras e sons na sua imagem-palavra. Em toda sua força, ali bem documentada, Augusto de Campos deslumbra a todas as idades com sua fina expressividade verbivocovisual.

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Brunno V. G. Vieira é professor de Língua e Literatura Latinas e coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos Literários da Unesp de Araraquara.

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© Fotos por Valéria, do blog 1 Pedra no Caminho

 

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