Aconteceu de novo

Cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura pelo ministro da Cultura, Roberto Freire, ao escritor brasileiro Raduan Nassar. O prêmio é considerado a mais importante distinção 
da Língua Portuguesa.

Raduan Nassar se envolve em bate-boca por causa da situação política do País

Assim como ocorreu com Chico Buarque em 2015, quando discutiu com opositores do governo do PT no Leblon, outro nome de prestígio de nossa cultura se envolveu em bate-boca por causa da situação política do País. Semana passada, por ocasião do recebimento do Prêmio Camões, o escritor Raduan Nassar leu um discurso com críticas contundentes ao governo de Michel Temer, ao Supremo Tribunal Federal, ao ministro Alexandre de Moraes e a todos que, de alguma forma, estariam associados ao “golpe” que afastou Dilma Rousseff da Presidência da República.

Presente à cerimônia como representante do governo, o ministro da Cultura, Roberto Freire, abandonou o texto que deveria ler e passou a responder, também de modo contundente, às críticas feitas pelo escritor. A plateia, em sua maioria constituída de editores e intelectuais, não concordou e começou a questionar o ministro. Criou-se, então, um clima de constrangimento às autoridades presentes, em especial ao embaixador de Portugal, cujo governo oferece o prêmio em parceria com o Brasil. O efeito maior se deu, porém, na repercussão do episódio na imprensa e nas redes sociais, alimentando a já rotineira oposição entre os defensores do governo deposto, que teria sido vítima de um golpe orquestrado entre outros pelo STF, e os que não pensam desse modo.

O fato não oferece nenhum dado novo, mas como envolve, mais uma vez, a figura de um artista que goza de certa unanimidade de crítica e público, merece pelo menos algumas observações. Primeiramente, as críticas que o escritor proferiu, em que pese alguma idealização de Portugal após a chamada Revolução dos Cravos, de 1975, e certo exagero na avaliação da situação política do Brasil, foram feitas publicamente e de forma refletida. Por isso, correspondem ao que ele pensa e desejou expressar naquele momento, destacando pontos que merecem a atenção de quem esteja preocupado com os rumos atuais de nossa política. Segundo suas palavras finais, ele não poderia ficar calado.

A outra observação refere-se ao comportamento de Roberto Freire. Como político experiente e consciente da situação política do País no momento, poderia ter sido mais diplomático. Se, na qualidade de representante do governo atacado, igualmente, não poderia calar-se, bastava ter registrado formalmente sua discordância, dizendo que respeitava o direito de expressão do escritor, e ler o discurso que havia preparado. Mas não foi o que aconteceu, e a plateia não perdeu a oportunidade de tentar calar o ministro, reproduzindo as palavras de ordem que, embora cada vez mais rareadas, ainda ocupam o cenário de diversas manifestações.

Na verdade, a nenhum dos dois personagens do episódio assiste razão. Raduan, uma vez que aceitou o prêmio, não precisava usar o espaço da premiação para divulgar suas ideias, pois ele dispõe de prestígio suficiente para expô-las onde quiser. Além disso, o teor de seu texto aproxima-o das vozes que tendem a alimentar mais a irritação do que a reflexão, num tom muito distante do sofisticado e profundamente crítico estilo de seus livros de ficção. Freire, por sua vez, mordeu a isca e perdeu a oportunidade de dar um exemplo de tolerância e disposição para o debate.

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Benedito Antunes é professor de Literatura Brasileira da Unesp de Assis.

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Foto de abertura: Cerimônia de entrega do Prêmio Camões de Literatura pelo ministro da Cultura, Roberto Freire, ao escritor brasileiro Raduan Nassar. O prêmio é considerado a mais importante distinção da Língua Portuguesa. (© Janine Moraes/MinC)

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