Conto: João Pedro

TEXTO ◘ Rafael Almeida Ferreira Abrão


Esta história é sobre João Pedro. João não conheceu o pai e da mãe ele pouco recordava. Sabia apenas que tinha irmãos e que havia sido dado para uma família muito diferente dele, e em troca sua mãe recebeu algum dinheiro. Gostava de pensar que o dinheiro dado a sua mãe e irmãos tinha-os ajudado de alguma forma, pois para ele a vida não poderia ser mais dolorosa.

No papel de filho bastardo, João era responsável somente pela limpeza da casa. Muitas vezes espiava a vida do filho de sangue do casal. Se revoltava e às vezes até chorava, pois a dor de nunca conhecer um amor legítimo o entorpecia. Fugiu de casa quando percebeu que não havia nenhum motivo para ficar ali.

Na rua, sentiu medo, frio e fome. Conheceu sensações para as quais ainda não inventaram nenhuma palavra. Não era fácil sobreviver, muitas vezes era desesperançoso. Tentava compreender a vida, sem sucesso. Na verdade, a vida dele era incompreensível. Como é possível uma vida com tanto sofrimento? Ele lamuriava.

Por todo lugar que passava, sua presença era tratada como um problema. Seu único alento foi conhecer o mar, e nele encontrou seu melhor amigo. As ondas o tratavam com carinho. Ser derrubado pelas águas era talvez a sua única diversão e uma das poucas ocasiões que conseguia sorrir. Os frequentadores da praia, pelo contrário, se intimidavam com a sua presença. João Pedro se esforçou muito para conseguir entender os olhares das pessoas, que o seguiam sempre que passava entre os guarda-sóis de Ipanema. Primeiro se convenceu que se destacava por ser feio demais, depois começou a achar que tinha alguma coisa errada com o seu corpo, até perceber que a única coisa que realmente atraía os olhares das pessoas dali era a cor da sua pele.

João percebeu que essa atenção não era bem-vinda, pois isso resultava em problemas com a polícia, que o perseguia sempre que podia. Dessa forma, João teve que se despedir do mar. Prometeu visitá-lo, sem saber ao certo se poderia cumprir essa promessa. Perambulou pela cidade até encontrar a Estação Central, onde descobriu um exército de crianças como ele: sem infância e da mesma cor. Mil rostos passavam por eles todos os dias, sem nunca os notar. Ser alguém invisível era muito solitário. Ao ouvir o barulho dos trens da estação, sempre recordava como o mar o acolhia. E sentia saudades.

As pessoas que não ignoravam sua existência pareciam ter raiva de João. Por muitas vezes não conseguiu dormir, receando que um desses lhe fizesse mal durante a noite. Havia apenas uma época do ano que João e as outras crianças voltavam a ser notadas: quando a cidade se enchia de luzes de Natal. Nesse dia, todos olhavam para eles de maneira diferente. Muitos traziam algumas coisas que João Pedro não fazia a mínima ideia para que serviam, de outras coisas, apenas lembrava de ter visto similares na casa onde um dia morou. Porém, na rua, aquilo não servia para nada. Por fim, essas pessoas saíam muito satisfeitas, pensando terem feito uma boa ação e no decorrer do ano João voltava a vê-las passando pela Central, mas quando não era Natal ele continuava sendo invisível para elas.

Foi também durante uma noite de Natal que João decidiu fugir de todas as pessoas estranhas e reencontrar o mar. Queria encontrar a amizade verdadeira e o som das águas que sempre o acolheram. Ao chegar, sentou-se sobre a areia e tentou, sem sucesso, lembrar de sua mãe. Por um minuto, se lembrou da casa onde conhecia cada canto que deveria ser limpo, mas no momento seguinte, já não conseguia se recordar nem quantos cômodos a casa possuía. Depois, lembrou-se das visitas noturnas que o seu padrasto lhe fazia. Estremeceu. Limpou essas lembranças da memória, com medo que o mar as pudesse notar e não o acolhesse mais.

Olhou para as ondas. Caminhou lentamente, seguindo o som que a água fazia ao se aproximar. Continuou caminhando até se encontrar envolto de ondas por todos os lados. Enquanto o mar ficava cada vez mais inquieto, João estava tranquilo. De forma impassível, pediu para o mar o aceitar, pois ninguém nunca o tinha acolhido. O mar, diante desse pedido, não pôde recusar. João Pedro lentamente foi se embrenhando nas águas. O mar lamentou, ouso dizer que até chorou. João Pedro não era o primeiro que ali pedia guarida e o mar não deixava de chorar toda vez que um João decidia partir. Era quase como se chorasse para mostrar que era diferente das pessoas.

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Rafael Almeida Ferreira Abrão é mestrando em Ciências Sociais pela Unesp, Câmpus de Marília. E-mail: <ra.abrao@gmail.com>.

IMAGEM:
Ibo Landing 7
Carvão em papel, 2009;
(137,16 x 132,08 cm).
A descrição artística de Donovan Nelson mostra os escravos Igbo marchando em um corpo de água com a água até o pescoço e os olhos fechados.
© Divulgação/ Valentine Museum of Art

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